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Nem Buda está a salvo das loucuras do aquecimento global em 2020

 A natureza foi caprichosa na região que recebeu o primeiro templo budista na China, no primeiro século da nossa era. Os arredores do Monte Emei, na província de Sichuan, são notáveis pela flora diversificada, que vai de plantas subtropicais a florestas de pinheiros.

Com o tempo, novos templos surgiram, tornando a região uma das mais sagradas para o budismo. Segundo a tradição, em 723 um monge chamado Hai Tong decidiu erguer uma gigantesca estátua na confluência de dois rios, Dadu e Min, um afluente do Yangtsé, a fim de acalmar as águas e facilitar a vida dos navegantes que por ali passavam.

A construção da estátua foi um martírio. Ao ver que a arrecadação de fundos para a obra estava ameaçada, o monge teria arrancado os próprios olhos, a fim de demonstrar o quão obstinado ele estava. Os discípulos de Hai Tong concluíram o projeto em 803, após a morte do mestre. Escavado em uma encosta do Monte Lingyun, 71 m de altura, cercado por árvores – algumas delas com mais de mil anos de vida –, o Buda Gigante de Leshan, como seria conhecido, é uma obra-prima da engenharia religiosa.

Atrás da cabeça e entre as duas orelhas, a estátua tem um sistema de drenagem que previne a erosão. Há calhas e dutos distribuídos, e escondidos, no cabelo e no peito. Buracos escoam a água, o que evitou, ao longo de mais de um milênio, que a estátua sucumbisse aos efeitos da natureza. 

Mas não aos da humanidade.

No início da dinastia Song, no século 10, a estátua passou por um período de decadência. Ficou coberta de limo, o pavilhão de madeira cedeu, uma lástima só. A obra foi restaurada, mas nos séculos seguintes ela enfrentaria uma série de outros problemas.

Nas últimas décadas, a poluição de Sichuan, uma província de 81 milhões de habitantes, vem danificando a região do Monte Emei e outros tesouros culturais e naturais da área. Além do aquecimento global e da poluição do ar, turbas de turistas também deixaram sua marca. Em 2001, o governo chinês investiu o equivalente a US$ 33 milhões em obras de restauro, mas já em 2007 a agência de notícias Xinhua relatou um enegrecimento do nariz da estátua. Sinal claro de que, se a poluição atmosférica não diminuir, o Buda gigante continuará se desfazendo.

Em 2020, este aninho tranquilo, leve e sereno, veio outro enorme susto. Chuvas inundaram a região, mais de 100 mil pessoas tiveram que ser evacuadas e as enchentes ameaçaram o monumento. Pela primeira vez desde 1949, segundo a TV chinesa, a água lamacenta dos temporais chegou aos dedos da estátua. Funcionários do parque, policiais e voluntários usaram sacos de areia para proteger o monumento.

A estátua gigante representa Maitreya, discípulo de Sidarta Gautama, o fundador do budismo. Maitreya, segundo a tradição, é o futuro Buda, que um dia virá à Terra para iniciar um novo ciclo. A obra é considerada o maior Buda de pedra do mundo e a maior estátua pré-moderna do planeta. Os mesmos pés que em agosto ficaram quase cobertos pela água podem abrigar até cem monges sentados – cada um.

Uma dica de quem já esteve lá avisa que, para vislumbrar a imensidão da estátua, você precisa observá-la de quatro pontos: de cima, dos lados, de baixo, e à distância de 15 minutos em uma travessia de barco.

Acredita-se que a estátua mudou mesmo a vida dos navegantes. Dizem que os operários removeram tanta terra para construí-la que, ao depositarem aquela montanha no fundo do rio,  as águas se acalmaram e a travessia ficou mais tranquila.

Hai Tong cumpriu sua missão e deixou uma obra magnífica para a humanidade, que já dura 1.200 anos. Que siga assim.

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