domingo, 15 de maio de 2016

Palavra do Dia: Urinol

n substantivo masculino
1 vaso apropriado para nele se urinar e defecar; penico
2 Regionalismo: Portugal.
m.q. mictório

sábado, 14 de maio de 2016

Suicídio


1 INTRODUÇÃO
Suicídio, ato intencional de encerrar a própria vida. O termo “gestos suicidas” é usado para descrever os comportamentos pelos quais os indivíduos agridem a si mesmos, freqüentemente com alguma gravidade, mas não necessariamente com a intenção de se matar. Em geral, os suicidas não conseguem tirar a vida na primeira tentativa e não é raro que algumas pessoas que cometem agressão contra si mesmas, com a finalidade de chamar atenção, acabem se matando sem querer. Todas as tentativas de suicídio e auto-agressão devem ser levadas a sério. É importante também procurar ajuda profissional para as pessoas que têm freqüentes fantasias suicidas.

2 DETERMINANTES HISTÓRICOS E CULTURAIS
Ocorreram suicídios em todos os períodos da história. Houve uma época em que se acreditou que esta era uma doença moderna, desconhecida nas culturas primitivas, generalização que jamais foi provada. Em algumas civilizações antigas, as taxas de suicídio eram relativamente altas, mas em outras desconhecia-se tal possibilidade. O diálogo de um homem com sua alma é um texto da literatura egípcia, aproximadamente do século XX a.C., escrito em um sarcófago, em que é debatida a possibilidade do suicídio.
Em geral, o suicídio não era condenado na antiga cultura grega. Platão foi uma exceção e reprovou o ato. Algumas escolas da filosofia grega, como os estóicos (ver Estoicismo) e os cínicos, estimulavam o suicídio em certas situações. Na Roma Antiga, o suicídio era uma prática relativamente comum, particularmente entre os escravos gregos e durante o período imperial (ver Império de Roma). A religião judaica, com sua ênfase na essência sagrada da vida humana, era contrária ao suicídio (ver Judaísmo). Há, no entanto, diversos episódios de suicídio na história judaica, entre os quais o mais famoso foi o suicídio coletivo de Massada, em 73 d.C., quando 960 judeus preferiram a morte a serem escravizados pelos romanos. A lei talmúdica (ver Talmude) proíbe a celebração de homenagens fúnebres às vítimas de suicídio, mas conforta os membros da família. Provavelmente, o suicídio era relativamente comum no início do cristianismo, durante o período do império romano. O primeiro cristão a condenar o suicídio foi Santo Agostinho, no livro Cidade de Deus. No século XIII, Tomás de Aquino condenou o suicídio com base em três postulados: era uma violação contra a autopreservação do indivíduo, contra a comunidade e contra os desígnios de Deus.
Certas culturas asiáticas tinham uma atitude complacente em relação ao suicídio. Em partes da Índia e da China, por exemplo, era comum uma viúva se matar depois de perder o marido. Também aceitava-se o suicídio quando um soldado era feito prisioneiro, em gesto de lealdade a um chefe morto ou, no caso de pessoas mais velhas, pelo desejo de não se tornar um estorvo para a família. No Japão, os guerreiros e os nobres utilizavam o suicídio como uma alternativa para se punirem depois de um crime e para evitar que a vergonha caísse sobre eles ou suas famílias. Um exemplo é o suicídio ritual ou haraquiri do escritor Yukio Mishima, insatisfeito pelo abandono dos valores da sociedade tradicional japonesa. Por outro lado, as sociedades muçulmanas (ver Islã) apresentam taxas de suicídio historicamente baixas. O Alcorão faz explícitas restrições ao ato e as taxas de suicídio continuam baixas entre os muçulmanos ainda hoje. Entre os deuses próprios da religião e da mitologia maia, existe Ixtab, a deusa dos suicídios.
Variam as leis sobre o suicídio. A Inglaterra proíbe o suicídio e pune com rigor as pessoas que tentam cometê-lo. Na maioria das culturas contemporâneas, o ato suicida é desestimulado por proibições legais ou por tabus religiosos. Na maior parte dos Estados Unidos, por exemplo, existem leis que proíbem ajuda a quem quer se suicidar. O ”suicídio” assistido por médicos — ou seja, o uso de drogas letais de efeito rápido que tem como finalidade interromper o sofrimento de uma pessoa com doença terminal — é legal em países como, por exemplo, a Holanda. Também chamado de eutanásia, esta opção pela morte tornou-se tema de debates devido aos avanços na medicina que podem aumentar a esperança e melhorar o padrão de vida de pessoas cujo quadro clínico seja desesperador. Um dos fundamentos da eutanásia é que o paciente tem direito de decidir sobre sua vida, sobretudo quando sua situação é irreversível.
Os sociólogos (ver Sociologia) tentaram explicar o suicídio a partir de fatores sociais e culturais. Émile Durkheim, por exemplo, viu o suicídio no contexto da degeneração dos vínculos sociais e no aumento do isolamento dos indivíduos. Outros sociólogos atribuíram o suicídio à urbanização, à desintegração da família nuclear e à tendência à secularização da sociedade.

3 CONSEQÜÊNCIAS
Invariavelmente, o suicídio de uma pessoa amada deixa os amigos e parentes devastados. Além da família, a vizinhança, a escola e o grupo profissional, todos sentem o impacto de um suicídio. Um suicídio pode destruir uma família e privar a sociedade de anos da capacidade produtiva e reprodutiva de um indivíduo. Em muitos casos, os suicídios podem ser impedidos. Uma compreensão mais abrangente dos fatores que levam alguém a este ato, e da doença psicológica relacionada a ele, podem ser importantes para impedir sua consumação. Além disto, o fácil acesso ao tratamento de doenças mentais e a melhoria nos serviços sociais para romper o isolamento de indivíduos vulneráveis são de fundamental importância para a prevenção do suicídio.

4 FATORES DE RISCO
Alguns estudos detectaram que certos grupos apresentam taxas de suicídio mais altas. A taxa entre os homens é três vezes maior do que entre as mulheres, embora entre elas o número de tentativas seja superior. Historicamente, as taxas são mais altas entre os idosos, embora no final do século XX tenha havido um significativo crescimento nas taxas de suicídio na faixa etária de 15 a 24 anos. O desemprego e a marginalidade aumentam o risco. Toda estatística feita a partir das amostragens de um grupo humano determinado (sexo, idade, condições de trabalho etc.), entretanto, deve ser conferida com aspectos tão complexos como a situação histórica e econômica do momento escolhido, os graus de avanço nos costumes e nas liberdades individuais, as possibilidades de acesso dos indivíduos as terapias psicanalíticas e não só psiquiátricas. Qualquer generalização é excessiva e pode cair no seu contrário, a parcialidade.
1 Fatores cognitivos e psicológicos
Entre os fatores psicológicos (ver Psicologia) que aumentam a possibilidade de suicídio, estão o desespero, a aparente impossibilidade de encontrar alternativas para a situação presente, excesso de ansiedade e uma idéia de que a morte pode ser uma saída para intensas dores emocionais. Autodesprezo, culpa e a perda no prazer de viver podem reforçar inclinações suicidas. A obsessão com a morte é um fator de risco. A existência de um plano suicida e os meios para colocá-lo em prática devem ser vistos com seriedade. Uma história pessoal marcada pela violência, a exclusão, tentativas de suicídio frustradas e homicídios aumentam o risco de um indivíduo se suicidar.
2 Fatores sociais
A ausência de apoio social é um importante fator de risco, já que os vínculos com a família e as instituições sociais podem diminuir a probabilidade de que alguém com tendências suicidas siga seus impulsos. Pessoas responsáveis pelo cuidado de pessoas jovens reduziram as taxas de suicídio.
3 Fatores econômicos e culturais
Os períodos de instabilidade econômica — como a Grande Depressão (ver Crise de 1929) — podem ser marcados por taxas de suicídio mais altas. Na chamada “década infame” (década de 1930) da história argentina, subiu a porcentagem de suicídios: foi o caso dos escritores Leopoldo Lugones e Alfonsina Storni, entre outros menos conhecidos ou anônimos. A sensibilidade extrema de muitos escritores tem conduzido em muitas ocasiões ao suicídio: Florbela Espanca e Alejandra Pizarnik, por exemplo. No século XIX, o suicídio costumava ser o desfecho da vida atormentada de muitos escritores românticos. As motivações políticas seriam a manifestação exterior dos suicídios de Joaquim Mouzinho de Albuquerque ou de Getúlio Vargas.
4 Fatores psiquiátricos e médicos
Geralmente, o suicídio ocorre no contexto de uma doença psiquiátrica. A doença mental mais comum associada ao suicídio é a depressão. Os pacientes com psicose maníaco-depressiva — doença caracterizada por súbitas alternâncias do humor —, com quadros de ansiedade (incluindo a síndrome do pânico e o estresse pós-traumático) e esquizofrenia também apresentam altas taxas de suicídio. A dependência química — consumo compulsivo de álcool ou drogas — também está relacionada a um grande risco de suicídio.
Alguns quadros médicos — especialmente câncer, Aids, doenças endocrinológicas, apoplexias e doenças neurológicas degenerativas — podem colocar um ser humano em grande risco de suicídio. Deve-se levar em consideração, no entanto, que a maioria das pessoas com graves problemas clínicos não se tornam suicidas, mas se alguma delas tem a fantasia da autodestruição, seu comportamento deve ser avaliado por um psiquiatra. Deve-se observar, no entanto, que, a despeito do amplo conhecimento sobre os grupos de pessoas que apresentam altas taxas de suicídio, não é possível prever com precisão quem tentará ou consumará o ato. Os esforços de se prever padrões de suicídio usando modelos baseados nos fatores de risco conhecidos não foram bem-sucedidos.

5 TRATAMENTO
Uma pessoa que fale em suicídio ou tente consumá-lo deve ser levada a sério. É necessária uma avaliação médica imediata. A avaliação da tendência de uma pessoa para o suicídio inclui a determinação de doenças psiquiátricas e médicas, a presença ou ausência de serviços sociais, perdas recentes, história pessoal de tentativas de suicídio ou atos de violência, história familiar, existência de um plano de suicídio e disponibilidade de meios para consumar o ato, e a possível influência de substâncias tóxicas.
O tratamento de pessoas suicidas é dividido em duas etapas. O primeiro passo é garantir a segurança da pessoa. Em muitos casos, há a necessidade de hospitalização, algumas vezes com acompanhamento 24 horas por dia. Deve-se eliminar o acesso a meios de autodestruição, escondendo armas, medicamentos e outras drogas existentes na casa. As pessoas suicidas devem ser mantidas em ambiente livre de riscos. Se o paciente não for hospitalizado, a presença de um membro da família ou amigo responsável pode ser suficiente, desde que o tratamento se inicie imediatamente.
O próximo estágio de intervenção é tratar qualquer doença subjacente. Pessoas com quadro de depressão e psicose maníaco-depressiva são geralmente tratadas com uma combinação de medicações e psicoterapia. Quadros de ansiedade podem responder a medicamentos, psicoterapia ou ambos. Dependentes químicos são aconselhados a se manter sóbrios, já que a intoxicação aumenta o risco de auto-agressões. Os grupos de mútua ajuda, terapias individuais e em grupo e medicamentos são indicados. Qualquer pessoa pensando em suicídio deve ser avaliada por um médico e um aumento no apoio social é de grande valia.
Depois da avaliação e do início do tratamento, o possível suicida poderá aproveitar-se dos tratamentos para doenças psiquiátricas. O uso ininterrupto de medicamentos é necessário e, geralmente, pacientes se beneficiarão na psicoterapia, que os ajudará a entender as origens de seus impulsos autodestrutivos, além de desenvolver meios mais eficazes de resolver problemas e se relacionar com outras pessoas. Tratamentos em grupo e envolvendo a família são usados com freqüência nesse tipo de paciente.

6 PREVENÇÃO
Embora as doenças psiquiátricas sejam conhecidas há décadas e seja cada vez maior o leque de tratamentos, as taxas de suicídio continuam a crescer. Em última instância, a prevenção do suicídio envolve intervenções em muitos níveis da sociedade. Já existem muitos programas de grande eficácia, como linhas telefônicas com conselheiros treinados para falar com pessoas em crise e programas que educam a comunidade sobre doenças mentais, ensinando a sociedade a reconhecer aqueles propensos à depressão e a outras desordens mentais. A conscientização das pessoas sobre o suicídio é de fundamental importância para que se possa identificar os grupos de risco.
A maioria das comunidades oferece alguns serviços para as doenças mentais, mas a disponibilidade de tratamento varia de modo significativo. Pode haver longos períodos de espera entre as consultas e freqüentemente a continuidade do tratamento é interrompida. As pessoas que sofrem de doença mental freqüentemente não percebem que podem se beneficiar de auxílio médico. Além disso, relutam em pedir ajuda e têm dificuldade de se ver no meio de uma rede de serviços comunitários. É fundamental que os recursos e serviços sejam acessíveis de modo que uma pessoa em crise possa ser imediatamente examinada por um profissional e um tratamento apropriado possa ser iniciado.
É importante também falar sobre o suicídio sem preconceitos. Manter o tabu não afasta sua possibilidade. Lygia Bojunga Nunes, autora de livros para crianças e jovens, escreveu sobre o tema no livro 7 cartas e 2 sonhos, em 1983.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

O Que é Niilismo?

n substantivo masculino
1 redução ao nada; aniquilamento; não-existência
2 ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência
3 total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu
4 Rubrica: filosofia.
para o filósofo escocês William Hamilton (1788-1856), doutrina que nega a existência de qualquer substância, ou realidade permanente, na constituição do universo [Hamilton aponta o fenomenismo de Górgias (450 a.C.-380 a.C.) ou de Hume (1711-1776) como exemplos de tal perspectiva filosófica.]
5 Rubrica: filosofia.
no nietzschianismo, negação, declínio ou recusa, em curso na história humana e esp. na modernidade ocidental, de crenças e convicções - com seus respectivos valores morais, estéticos ou políticos - que ofereçam um sentido consistente e positivo para a experiência imediata da vida
6 Derivação: por extensão de sentido. Rubrica: filosofia.
no heideggerianismo, agravamento final do esquecimento originário do ser, o que implica a prevalência de uma realidade dominada pela técnica
7 rejeição radical às leis e às instituições formais
8 Rubrica: história, política.
ideologia de um grupo revolucionário russo da segunda metade do sXIX, militante em prol da destruição das instituições políticas e sociais, para abrir caminho a uma nova sociedade, e favorável ao emprego de medidas extremas, inclusive terrorismo e assassínios
9 ação anarquista, terrorista ou revolucionária

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Tonturas

A famosa tontura, que nos dá a sensação de que tudo ao redor gira, o chão parece se mover e de que vamos cair, nada mais é do que a ilusão criada pelo nosso cérebro de que algo está se movendo.
Pode ter origem fisiológica, como a que sentimos quando giramos muito rapidamente em uma brincadeira de roda, por exemplo, nos sentimos mal dentro de um ônibus, ou temos aquela sensação de que a cama está rodando depois de ingerir bebida alcoólica em excesso.
Mas a sensação também pode ocorrer quando algo não está funcionando muito bem em nosso organismo, principalmente com o labirinto. Localizado na região do ouvido interno, a estrutura é responsável pela noção de equilíbrio e percepção de posição do corpo. É ele que envia as informações de equilíbrio ao sistema nervoso.
Quando suas estruturas inflamam, por conta de uma virose, por exemplo, nossa noção de equilíbrio fica comprometida. É o que conhecemos como "labirintite".
No entanto, a tontura pode ser iniciada por outros motivos. Conheça os principais:

Sensação de mal estar no ônibus

Para muitas pessoas, andar de barco, avião, carro ou ônibus é sinônimo de tontura e sensação de mal-estar. Para os médicos, esse desconforto é conhecido como cinetose, ou "doença do movimento".
De acordo com os especialistas, essa sensação ruim acontece quando há um conflito no envio das informações transmitidas pelo tato, visão e labirinto para o sistema nervoso central. Esses três componentes são responsáveis por "orientar" o equilíbrio do corpo.
"É como se, ao mesmo tempo, o cérebro recebesse informação do labirinto, dizendo que o corpo está em movimento. Enquanto isso, a visão diz que está parada lendo um livro e os pés também não estão se movimentando", explica o otorrinolaringologista Ricardo Dorigueto, do Hospital Paulista (SP).
Com tantas informações contraditórias, o sistema nervoso central não sabe como interpretá-las e o corpo começa a enviar hormônios de estresse para avisar que algo não está certo. O resultado é a tontura acompanhada pela sensação de mal-estar. 

Tudo girando após a bebedeira?

O álcool ataca os neurônios e confunde a maneira como os neurotransmissores enviam informações entre uma célula nervosa e outra. Entre as substâncias neurotransmissoras está a dopamina. "Quando o álcool a atinge, acontece a redução da capacidade motora, do equilíbrio e, consequentemente, vem a sensação de tontura", diz Igor Costa, otorrinolaringologista da Clínica Dra. Denise Lellis.
Além de atacar os neurônios, o álcool muda a composição e a densidade do líquido que fica dentro do labirinto, favorecendo os sintomas de vertigem, náuseas, zumbido e sensação de ouvido tampado.

Tontura ao levantar bruscamente

A tontura e até o desmaio experimentado por algumas pessoas que se levantam bruscamente depois de um longo período deitado (como ao acordar ou depois de ver um filme) não está ligado ao labirinto, mas sim a uma redução do fluxo sanguíneo no cérebro.
Quando estamos deitados, a quantidade de sangue bombeada pelo coração e enviada ao cérebro é reduzida. "Ao levantarmos, o corpo precisa de uma quantidade maior de sangue irrigando o órgão. Mas, por um momento, o coração não consegue enviar o montante", explica Fausto Nakandakari, otorrino do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

Brincadeiras de roda

O ouvido é composto por três canais semicirculares responsáveis pelas dimensões (esquerda e direita, frente e trás, cima e baixo). Esses canais são cheios de um líquido chamado endolinfa.
Quando giramos a cabeça, esse líquido acompanha o movimento. No entanto, ao pararmos, o fluido continua seu movimento pelos canais até perder força e parar. Esse período em que o líquido ainda está em movimento é o que nos faz sentir que estamos rodando, mesmo com a cabeça parada.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Entrevista do Trimestre: Embaixador Sergio Amaral

Se Donald Trump ganhar as eleições norte-americanas, o que muda nos Estados Unidos e na sua relação com o Brasil? A tradicional administração americana é forte o suficiente para impedir a implantação de ideias ‘estranhas’ que o candidato vem apresentando?
Essas perguntas requerem uma percepção um pouco mais ampla: a análise do novo populismo na Europa e nos Estados Unidos. O movimento parece refletir algumas coisas. Uma delas é um esgotamento da democracia liberal, porque os partidos não foram capazes de captar a tempo a crescente insatisfação da sociedade e dar uma resposta. Há uma crise de representatividade na Europa, onde se vê um conjunto de partidos antieuropeus. Nos EUA também há uma crise de representatividade porque os partidos políticos esperavam que certos temas fossem absorvidos e não foram.

Como o tema dos imigrantes? 
Sim, incluindo o tema das importações, sobretudo provenientes da China, que transferem empregos e estão aguçando um sentimento nacionalista protecionista. Curiosamente, a Hillary Clinton tem hoje a seu lado o senador Bernie Sanders, que é uma espécie de socialista tardio. Ele levantou uma série de questões socialistas exatamente no momento em que o socialismo no mundo está acabando. O populismo, nesse sentido, significa líderes ou partidos que estão tomando lugar dos partidos tradicionais. Trump fala para os desempregados cujas empresas onde trabalhavam foram fechadas. Fala para os sindicatos que sofrem a concorrência dos produtos de fora ou cujos associados estão perdendo emprego. Ele fala de maneira segmentada.

E como unir essas partes? Como unir o protecionismo em um partido liberal, como o Republicano? De que maneira Trump vai implantar a ideia fantasiosa de fazer um muro entre EUA e México? Ou proibir a imigração?
É fato que a imigração não se refere só ao imigrante em si, mas também às empresas que precisam de migrantes para serem competitivas.

Acredita que hoje quem não é politicamente correto é visto com bons olhos? Não há nada mais politicamente incorreto que falar sobre o muro entre Estados Unidos e México, concorda?
Trump dá uma resposta radical, diferente dos partidos tradicionais, que deram respostas que não foram satisfatórias para setores e camadas que estão sofrendo esses problemas.

Aqui na América Latina você vê algo parecido?
Por aqui o populismo tinha outro conceito, extremamente diferente, que era a capacidade dos partidos tradicionais manipularem as massas com discurso popular. Depois, o populismo foi econômico. E hoje o populismo já é diferente. O caso mais claro do populismo atual na América Latina foi o de Hugo Chávez. Não acho que Lula tenha sido exatamente populista. Ele foi popular. Já em um segundo momento do governo Dilma, ela sim foi claramente populista quando as respostas que dava não tinham um significado realista, não condiziam com a realidade.

O sr. acha que esse novo populismo inclui inverdades, como no caso de Dilma?
Muitas das afirmações que Dilma fez, sobretudo na campanha, não condiziam com a realidade e essa foi uma das grandes razões da perda de popularidade dela. Os eleitores, inclusive do PT, se sentiram fraudados. Mas o impressionante é que isso parece ser não só uma prática, mas também um recurso da política nos tempos contemporâneos.

O Brasil vai ter eleições majoritárias daqui a dois anos e meio. Há algum perigo disso se repetir por aqui?
Não. Inclusive porque o que nós estamos sentindo no governo do presidente interino, Michel Temer, é exatamente o contrário. Ele está buscando uma pacificação, uma serenidade no trato das coisas e, acima de tudo, tem uma grande capacidade de articulação política. Acredito que isso vai estabelecer um modelo, um novo parâmetro de relações do governo com o Congresso e com a sociedade.

Trata-se de um novo modelo ou já tivemos conduções semelhantes a esta?
É um modelo parecido com o que foi o governo Fernando Henrique Cardoso. Que tinha uma grande serenidade, tinha capacidade de articulação e, sobretudo, a capacidade de uma discussão pública das grandes questões.

O que o Brasil pode esperar da ida do sr. a Washington? O que vai mudar?
Temos uma boa oportunidade de um aprofundamento das nossas relações, porque, antes de tudo, existe uma convergência nas políticas maiores dos dois países.

O que isso quer dizer? 
Obama, desde o início, assumiu compromissos que vão exatamente na direção daquilo que o Brasil sempre reclamou ou sempre desejou: a afirmação do multilateralismo, a afirmação da concertação como uma forma básica de entendimento. Mais do que isso, ele deu um passo muito importante para as relações dos Estados Unidos com a América Latina: o reatamento das relações com Cuba.

Mesmo com a proximidade do governo Lula e Dilma com Cuba, o Brasil não foi chamado a participar dessas negociações. Perdemos a oportunidade de ter tentado um entendimento? 
Talvez o Brasil tenha perdido essa oportunidade porque não era visto como isento nessa relação entre Estados Unidos e Cuba. Mas voltemos à convergência, qual é a nossa parte nela? Ela está no discurso de posse do ministro José Serra com orientação clara do presidente Temer: a nova política externa vai ser fiel aos valores e aos interesses do Brasil e não às preferências ideológicas de um partido.

Que projetos o sr. levará para Washington?
Tive uma grande surpresa ao me debruçar na relação bilateral, que eu não acompanhava havia muito tempo. Existe uma multidão de grupos de trabalho, de comissões mistas, de projetos que foram assinados ou que resultaram em comunicados conjuntos entre Brasil e Estados Unidos. A maior parte deles está paralisada ou nem saiu do papel.

Sabe por que não andaram?
O episódio da espionagem telefônica da Dilma praticamente paralisou o relacionamento, mas também há casos em que nós não soubemos superar as dificuldades. Tenho tido conversas com a embaixadora americana no Brasil, preparando a minha ida, e nós resolvemos que a primeira coisa que vamos fazer é uma limpeza da mesa. Pegar essa pilha de projetos e acordos, separar o que é viável, aquilo que pode ser resolvido a curto prazo, o que é uma prioridade para os dois países, e tentar resolver isso da forma mais rápida possível.

Pode mencionar alguns desses projetos?
Um que já está no Congresso é o Open Sky, que permite a liberdade de frequência de voos entre os dois países. Há também um acordo sobre carne, dando liberdade de exportação in natura dos dois lados. Esse projeto está bastante avançado existindo apenas algumas questões técnicas que devem ser resolvidas nas próximas semanas para que se concretize. Além disso, está pronta para sair a questão da aprovação do Global Entry – programa que ajuda a agilizar a entrada de passageiros internacionais de baixo risco, pré-aprovados, com destino aos EUA. Isso aumenta o prazo do visto para viajantes frequentes ou facilita a vida, sobretudo, da comunidade de negócios.

Na área cultural, podemos esperar algo interessante? 
Defendo que nós criemos nichos para falar para determinados segmentos da sociedade. Quando estive na embaixada, em 1992, começamos a construir uma ponte entre a comunidade judaica americana e a brasileira. Você sabia que os judeus que fundaram Nova York, em sua maioria, migraram do Brasil para lá? Na época em que a Inquisição se instalou na Espanha e, depois, em Portugal, esses judeus novos vieram para o Brasil durante a ocupação holandesa e se instalaram no Nordeste, tendo importante papel na colonização holandesa de Pernambuco. Falo em desenvolver uma ponte de aproximação.

Como seria essa ponte de aproximação?
Poderíamos começar com uma exposição mostrando que, quando eles foram expulsos com os holandeses de Pernambuco, uma parte migrou para Nova York – que era a New Amsterdam – e ajudaram na fundação da cidade. Tanto assim que o primeiro cemitério judeu em NY se chama Cemitério Brasileiro. Tem também uma história que eu comecei lá atrás e que não evoluiu: a participação do Smithsonian Institute no desenvolvimento e criação de parques temáticos ambientais na Amazônia. Nós os ajudamos a criar um departamento sobre a Amazônia e depois eles estudaram a implantação de cinco parques temáticos. Quero muito ver isso acontecer.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Palavra do Bimestre: Coronelato

n substantivo masculino
1 Rubrica: termo militar.
posto, função ou dignidade de 1coronel ('oficial')
2 Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo. Diacronismo: obsoleto.
influência ou poder político exercido por 1coronel ('indivíduo poderoso')
Ex.: naquela empresa há um forte c.

domingo, 8 de maio de 2016

Dica de Série

Black Mirror"

Séries que abordam o avanço da tecnologia e suas consequências na sociedade não faltam por aí. Mas é "Black Mirror" que bota o dedo na ferida mais profunda dessa geração: os efeitos colaterais de uma modernidade sem limites. É uma crítica social e cínica de como isso nos faz dependentes e psicologicamente frágeis --e incomoda nos ver tão bem representados no absurdo. O programa é uma espécie de "Além da Imaginação" (1959-1964) atualizado, que usa a tecnologia para refletir sobre as relações interpessoais, expondo o lado obscuro da humanidade. Uma ficção científica muito próxima da realidade, e por isso mesmo perturbadora. Vale compreendê-la como um alerta.

São só duas temporadas com três episódios cada, de cerca de 1h de duração, além de um especial de Natal (2014). Cada episódio é independente entre si, com elenco diferente e histórias sem qualquer conexão, o que lhes permite ampliar o universo retratado. A série está disponível no Netflix, que já anunciou a terceira temporada com 12 novos episódios, ainda sem data de estreia. Acredite: você não verá nada igual na TV

Arquivo/File