domingo, 28 de agosto de 2016

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Entrevista do Bimestre: Mauricio Macri

Em relação ao Mercosul, o bloco poderia pedir à Venezuela que realize o referendo revogatório ainda este ano? O chanceler José Serra mencionou uma proposta argentina neste sentido.
Já me expressei publicamente, o povo venezuelano tem direito a expressar-se, sobretudo diante da violação sistemática dos direitos humanos cometida pelo governo de Nicolás Maduro. Ainda não o vejo como parte da agenda no Mercosul, vamos ver no dia 3 de outubro quando falemos com o presidente Temer sobre o assunto.
 Falta de apoio do Uruguai?
Não, ainda não se colocou uma posição assim como Mercosul. A Argentina a adotou como país, individualmente.
* Mas a Argentina tem uma proposta?
Não fizemos nenhuma proposta nesse sentido.
* E na segunda-feira?
Veremos, vamos falar em profundidade. Acho que tudo o que possa ser feito para ajudar os irmãos venezuelanos deve ser feito, estou aberto a todas as alternativas possíveis que permitam que haja referendo e assim ver se finalmente são realizadas eleições antecipadas na Venezuela. 
* Viu Maduro na Colômbia?
Estivemos no mesmo espaço físico, mas não o vi.
* Não trocaram palavras?
Não
* O presidente de Peru, Pedro Pablo Kuczynski, disse que há que pressionar a Venezuela porque é muito perigoso o que pode acontecer se a Venezuela não resolver a crise política. O sr. concorda que há que aumentar a pressão? Como se faria isso?
Ao máximo possível. De toda maneira que for possível. Não é fácil a situação. Estou muito preocupado porque tomei posições claras em relação ao tema, mas o único que se vê de longe é que cada dia os resultados estão piores. Sinto que o governo de Maduro radicaliza suas posições em vez de gerar uma abertura ao diálogo. Não tenho claro como vai evoluir o assunto.
Acredita que até 1º de dezembro a Venezuela poderia cumprir as normas do Mercosul ou inclusive seria mais conveniente ao bloco que as coisas fiquem como estão?
Na minha opinião, o ingresso da Venezuela não acrescentou nada positivo ao Mercosul. Assim que o Mercosul seguiria adiante de uma forma mais fácil sem a Venezuela de hoje que com a Venezuela de hoje.
* Se refere às condições econômicas ou mais às questões democráticas?
Primeiro, ao não respeito às normas democráticas e segundo ao sistema econômico, que está colapsado na Venezuela. 
*Estaria então mais inclinado para que Venezuela baixasse de status de membro associado, como é Bolívia e Chile.
A Venezuela não cumpriu os requisitos que tinha que cumprir para ser um membro ativo do Mercosul. Se em 1º de dezembro não os cumpre, deixa de pertencer ao Mercosul.
Com relação à Venezuela e a outros assuntos de política externa, eventualmente a chanceler Susana Malcorra baixa um pouco o tom de suas declarações. Ocorreu com com Malvinas, Venezuela, Mercosul. Há um ruído entre os dois?
Nenhum. Ela é a chanceler e eu sou o presidente. Me dou o direito de me expressar com claridade absoluta sobre o que penso e a chanceler faz a tarefa diplomática.  O que sentimos os argentinos é que temos que ser solidários com os venezuelanos. Na época da ditadura na Argentina, um dos países mais abertos a receber exilados argentinos foi a Venezuela. Devemos aos venezuelanos uma defesa irrestrita de seus direitos, que hoje são violados por um governo que atropelou as instituições democráticas.

* Perguntas feitas pelos correspondentes de Folha de S. Paulo e O Globo

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Entrevista do Mês: Alexandre R. Barros

Como surgiu a hipótese, demostrada muito bem no livro, de que foi a defasagem no capital humano que explicou o atraso no desenvolvimento brasileiro? As escolas de economia vivem de modismos. Hoje existe uma vasta literatura acadêmica que enfatiza o capital humano como o fator que melhor explica o desenvolvimento dos países. Esse é o motor do crescimento econômico e, portanto, do desenvolvimento. Faltava, entre os pesquisadores brasileiros, uma aplicação aprofundada desse conceito. A ideia em si já é bastante consolidada na teoria econômica. No Brasil, ainda estamos demasiadamente presos à explicação de Celso Furtado (1920-2004) para o atraso brasileiro. Essa teoria fala da especialização econômica em produtos primários como a causa para a industrialização retardatária. Os economistas já deixaram de lado a teoria de Furtado e seguem a teoria dominante que enfatiza a importância do capital humano. Resolvi aplicar essa teoria para analisar as razões do atraso brasileiro.
E que fatores contribuíram para o atraso no capital humano? Procurei mostrar com a formação da sociedade brasileira, a origem de seus povos, influenciou no acúmulo de capital humano.
Celso Furtado e seguidores da teoria da dependência não enfatizam a questão do capital humano. O atraso no capital humano, quando muito, parece ser tratado como consequência do baixo desenvolvimento, e não sua causa. É isso mesmo? Realmente, o capital humano é um aspecto relegado ao terceiro plano. Para Furtado, quando houvesse a industrialização, naturalmente haveria o investimento em capital humano, como uma consequência, portanto, do desenvolvimento. Na verdade, a lógica é inversa. É o capital humano que, tendo sido construído e acumulado, vai determinar qual será a especialização.
Furtado usava também o exemplo do sucesso dos Estados Unidos para justificar a defesa de medidas protecionistas como maneira de incentivar a indústria. Mas os americanos tiveram políticas protecionistas por um período relativamente breve, e depois de a sua economia já ser uma das maiores do mundo, correto? As políticas protecionistas são irrelevantes para explicar o desenvolvimento dos Estados Unidos. Isso nem arranha a casca. O desenvolvimento ou não da indústria e a especialização produtiva de um país são consequência, e não causas.
Falando em modismos, o modelo mais aceito para o desenvolvimento é o institucional. Os países são o fruto da qualidade de suas instituições. Esse modelo explica o atraso brasileiro em capital humano? Essa visão é muito forte hoje entre os economistas brasileiros. O atraso institucional brasileiro herdado de Portugal é tido como a razão para o atraso econômico. Essa hipótese, na minha avaliação, carece de uma análise mais aprofundada. Eu, no meu trabalho, inverto um pouco essa lógica. Para mim, é a luta de classes que determina as instituições e que leva ao fim ao acúmulo de capital humano. Não coloca as instituições como fonte de equilíbrio na sociedade. É a luta de classes que gera um determinado equilíbrio e a partir desse equilíbrio as instituições são formadas.
O seu trabalho enfoca também o papel determinante da imigração no acúmulo de capital humano e no desenvolvimento. Esse é outro aspecto pouco ressaltado nas análises tradicionais sobre o atraso brasileiro. Quão importante foi a imigração? Os dados que exponho no livro mostram que a diferença na imigração, ou seja, no capital humano dos imigrantes, explicar praticamente toda a diferença de renda que havia entre o Brasil e os Estados Unidos em 1900. Os dados, para mim, foram impressionantes. Fiquei surpreso com o poder da imigração para explicar o atraso relativo do Brasil. Apenas a diferença na composição dos imigrantes entre os dois países explica 95% da diferença da renda per capita registrada ao redor do ano 1900. Os dados que exponho no livro mostram que a diferença na imigração, ou seja, no capital humano dos imigrantes, explicar praticamente toda a diferença de renda que havia entre o Brasil e os Estados Unidos em 1900.
Recentemente, houve um avanço em matrículas, mas a qualidade do ensino tem ficado a desejar. O Brasil está recuperando o atraso no que diz respeito à educação? Houve uma melhora do governo Fernando Henrique em diante, não podemos negar. Com a estabilização da democracia, a parte da sociedade menos privilegiada passou a ter mais força política. Hoje o investimento brasileiro em educação, como proporção do PIB, é maior do que na maioria dos países europeus. No passado, as populações mais pobres tinham pouco poder de mobilização. Não conseguiam pressionar o poder público. A elite brasileira foi muito esperta. Instituiu o ensino superior privado gratuito para os seus filhos, mas não investiu no ensino público básico. Para deixarmos de ser um país atrasado, precisamos desmontar esse tipo de privilégio.
Entre os historiadores paulistas, existe uma tradição, desde o trabalho de Caio Prado Júnior (1907-1990), de apontar a estrutura fundiária, particularmente os latifúndios, como um determinante do atraso brasileiro. Concorda? Mais uma vez, considero os latifúndios uma consequência, não a origem do atraso brasileiro. A realidade é que os latifúndios eram uma estrutura de exploração eficiente, dado o nível de organização dos produtores. É bom lembrarmos que o Brasil tinha fronteiras agrícolas abertas. Mas por que na margem, onde havia fronteira aberta, as pessoas não se instalavam ali e exploravam a terra de maneira eficiente? Na verdade, as pessoas que se instalavam nessas áreas possuíam um baixíssimo capital humano. Não tinha condições de explorar a terra de maneira competente. Esses historiadores afirmam que os latifúndios impediram a formação de uma classe média rural. Ora, essa classe média rural não se formou por causa da deficiência no capital humano daqueles agricultores. Como os fazendeiros não dispunham de infraestrutura adequada, as propriedades consequentemente tinham de ser extensas para prosperar. São Paulo, no passado, era composto por grandes latifúndios cafeeiros. Quando chegaram os imigrantes mais qualificados, eles conseguiram fazer arranjos para adquirir propriedades.
A longo prazo, qual sua avaliação para o país? Vivemos uma crise série, motivada pelo fato do governo ter imaginado que o estado pode tudo. Mas, quando sairmos da crise, há uma forte mais forte dos segmentos tradicionalmente excluídos. Esses setores se libertaram de uma hegemonia de elites locais e votam com maior consciência. Saúde e educação serão questões importantes. São exigências dessa população. A qualidade do ensino será certamente uma das grandes demandas da sociedade. Mas é importante os governantes compreender que para desenvolver o país não é necessário violentar as leis de mercado, ao contrário da visão pregada por Celso Furtado. É preciso atuar em outras áreas, para que as leis de mercado contribuam para o desenvolvimento.

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