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Entrevista: Dr. Cristiano Nabuco

Blog: Como a tecnologia pode causar dependência nos mais jovens?
Dr. Cristiano Nabuco: Alguns estudos já mostram que o celular, da forma que vem sendo utilizado hoje, vem criando o que chamamos de dependência tecnológica. Há pessoas que cada vez mais precisam ficar em contato com o celular, semelhante àquelas pessoas que são viciadas em álcool e drogas. Quando ficam longe apresentam reações de falta e de necessidade. Alguns estudiosos já dizem que a tecnologia é o novo vício do século 21. Assim como existe a dependência química, existe também a dependência comportamental. E no uso patológico da internet e do celular, muito embora não exista a ingestão de uma substância externa, os efeitos e dependência observados são muito semelhantes.
Blog: Por que o acesso à tecnologia tem que ser evitado em crianças pequenas?
Dr. Cristiano Nabuco:  Nosso cérebro sofre um processo de amadurecimento que só é finalizado após a maioridade, aos 21 anos. A região do córtex pré-frontal é a última área a ser finalizada, e o córtex é responsável pelo nosso raciocínio lógico e também pelo controle dos impulsos, é nosso freio comportamental. Eu sou adulto e sei, pela minha experiência, que não posso misturar caipirinha e vinho, sei que não dá para misturar bebida fermentada e destilada, eu consigo frear minha ação. No caso dos jovens, embora eles tenham acesso ao conhecimento, não conseguem diminuir o apelo do comportamento.  Por isso essas questões ligadas ao impulso são muito importantes, as pessoas têm de ficar atentas para que a vulnerabilidade cognitiva do cérebro não crie problemas de adicção.
Blog: A partir de que idade você pode dar um smartphone para uma criança?
Dr. Cristiano Nabuco: Nós estamos vivendo hoje um grande paradoxo. Se tem a noção de que quanto mais eu puder estar exposto a um determinado tipo de elemento ou circunstância, mais ele me beneficia. Por exemplo, quanto mais exercício físico eu fizer melhor, quanto mais estudo eu tiver, melhor, quanto mais contato com a tecnologia tiver, melhor. E é o contrário. A gente sabe que o nosso cérebro tem uma capacidade de absorção e depois de um certo tempo esse excesso começa a se tornar stress e provocar a reação contrária. O que a gente observa é que muitos pais, de forma inadvertida, acabam dando o celular para as crianças porque isso é um motivo de glamour, ‘olha só, meu filho já sabe mexer no celular!’ O que a gente recomenda é que nunca, nunca, jamais a gente deveria permitir o contato de uma criança com qualquer tipo de tecnologia antes dos 2 ou 3 anos de idade. Porque existem operações mentais que precisam naturalmente serem feitas e o grau de estimulação de um tablet desrespeita essa ‘ecologia’, essa natureza de desencadeamento da lógica. Já se sabe, por exemplo, que quanto mais você utilizar a tecnologia, piores serão suas funções cognitivas como a memória e desenvolvimento da atenção. Não é que sejamos contrários à tecnologia, não é isso, mas o alerta é que se tenha o mínimo de cuidado para que essa exposição seja zelada e observada.
Blog: Quais são as consequências dessa exposição cada vez mais precoce e intensa?
Dr. Cristiano Nabuco: Grande parte das informações que nos chegam pelos smartphones são absolutamente irrelevantes. Essa alternância de operação mental de ler um livro e parar para ver o celular, ouvir o professor e checar o celular, debruçar sobre um trabalho e voltar para o celular, começa a criar um padrão onde progressivamente o cérebro vai perdendo a capacidade de se aprofundar. A ponto de hoje, muitas vezes, quando nós vamos dar aula para os jovens na universidade e na graduação, eles não conseguem mais se debruçar e se aprofundar sobre textos mais densos. Eles perderam a capacidade de concentração. O manuseio contínuo das redes sociais, das buscas, da música e da fotografia, à ‘caça’ ao Pokemon, tudo isso cria uma poluição que compromete profundamente da lógica e a capacidade de raciocínio.
Blog: Qual o papel que a tecnologia deveria ter na vida dos jovens?
Dr: Cristiano Nabuco: Você pode usar a tecnologia. Ela tem de estar ao seu serviço e não ao contrário, ela não pode te deixar dependente e aprisionado. O que eu vejo é uma grande quantidade de jovens e adultos que vão dormir com o celular, que deixam o celular ao lado da cama, aquele celular fica apitando a noite toda, recebendo mensagens, ou seja, o sono, que deveria ser reparador, não cumpre sua função porque foi interrompido por inutilidades. Aí começa o ‘efeito cascata’. O que alguns pesquisadores têm dito é que a tecnologia, do jeito que ela tem sido utilizada hoje, de forma inadvertida, está causando uma grande limitação social. Parece que a tecnologia, hoje, deixou de ser uma ferramenta para se tornar um ruído e, no fundo, nossa qualidade de vida não está melhor, ao contrário, está pior. Estamos criando uma geração de alienados.
A gente sabe que 75% das famílias, cada vez que assistem a um programa de televisão, estão com o telefone na mão, olhando para a outra tela. Então aquilo que deveria acontecer – você com seu filho, fazendo comentários críticos ‘olha esse programa, que interessante ou não’,  ‘concordo com essa notícia ou não’ – aquele momento de criar uma consciência crítica na mesa, na hora do almoço ou do jantar, momentos tão raros devido à falta de tempo de cada um, são perdidos porque você está com seu telefone, mandando mensagem. Eu diria que chegamos a um ponto onde o convívio nosso com a tecnologia se tornou tão absurdo que aquilo que era atípico, virou normal. Esse maior acesso à informação, infelizmente, não está virando conhecimento. Nós perdemos valores e  teremos que reaprendê-los dentro dessa era tecnológica.
Nós somos testemunhas oculares de uma mudança nunca antes vista na história da humanidade. Essa revolução midiática está impactando tanto, que alguns antropólogos chegam a compará-la à descoberta do fogo. Como eu trabalho na área da saúde e a mim chegam cotidianamente os casos mais graves, eu tendo a ser mais reticente em relação à essas mudanças, que obviamente são positivas. No fundo a questão não é tecnologia e sim a vulnerabilidade de cada indivíduo, o jeito que as pessoas estão fazendo para incluir essa tecnologia em suas vidas. Tem uma escritora americana que eu gosto, a Sherry Turkle, que escreveu o livro  “Alone together”, e é dela uma frase que eu repito muito: “A tecnologia entra na vida de uma pessoa de uma forma negativa quando as relações pessoais não ocupam seu devido lugar”. Alguns pacientes verbalizam: “O celular é meu Prozac virtual, cada vez que eu me sinto mal eu vou para o smartphone e lá eu encontro tudo”. Isso explicaria porque um jovem ficaria 50 horas conectado, ou seja, na vida paralela, no mundo virtual, essas pessoas conseguem ser aquilo o que elas não são na vida real. É como se a vida virtual começasse a funcionar como um elemento compensatório.  Quem tem problemas de auto-estima, não consegue abordar uma pessoa porque tem vergonha, cria na internet e nas redes sociais o que a gente chama de ‘personalidade eletrônica’. Essas pessoas se tornam mais insubordinadas, mais corajosas, elas apreciam mais o que elas são. Obviamente que cada vez que eu vivo uma realidade com a qual eu me identifico mais, eu vou querer retomar a experiência. Os jovens  começam a não gostar mais da vida offline, a vida online começa a ser tão realizadora que se torna uma das bases do vício.

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