Entrevista da Semana: Mercado Livre

Como surgiu a ideia de criar o Mercado Livre?
Quando fui estudar nos EUA, eu estava convencido de que a internet iria mudar o mundo. Me sentia frustrado porque eu ia voltar para meu país e não poderia fazer muitas coisas que eu já fazia nos EUA. Não havia serviços. Na época, em todos os países da América Latina, havia apenas cinco empresas que dominavam o comércio. Se as pessoas não moravam em uma grande cidade, não tinham acesso aos lançamentos de produtos e aos melhores preços. Eu pensei, então, em criar um lugar onde as pessoas poderiam comprar e vender de tudo. 
Muitos varejistas estão apostando no mesmo modelo do Mercado Livre. Porque só agora?
Os grandes varejistas tentaram resistir, mas perceberam que precisam ter suas plataformas de marketplace. Mas eles têm dificuldades, porque vêm de uma cultura de concentrar o varejo nas mãos de poucos, enquanto nós não. Da mesma forma que o Google democratizou o acesso à informação, estamos democratizando o comércio na América Latina.
Foi difícil conseguir investimento após criar a empresa?
Sim, particularmente na segunda rodada de investimentos, quando a bolha da internet já havia estourado. Levantamos US$ 45 milhões, mas foi um dos piores momentos da história do Mercado Livre.
O que motivou o sr. a continuar, apesar das dificuldades?
Eu tenho paixão pela internet. Eu estava convencido de que ela iria mudar tudo para melhor. Quando eu vi a oportunidade, foi irresistível para mim.
Porque o Brasil é tão importante para o Mercado Livre?
A nossa operação no Brasil é maior do que todas as nossas outras operações juntas. Melhoramos a experiência de pagamento e o Brasil se tornou o primeiro mercado onde 100% das transações são pagas pelo Mercado Pago. O Mercado Envios é usado para enviar 70% de todos os produtos comprados no site. Isso ajudou a acelerar a empresa no Brasil e tivemos crescimento de 60% na receita em 2016.
Quando o Mercado Livre vai permitir compra e venda entre quaisquer países da região?
Estamos começando a trabalhar em comércio entre regiões. Fizemos uma parceria com eBay para permitir que, no Chile e Colômbia, as pessoas comprem produtos da China e dos EUA. Ainda não sabemos quando vai chegar ao Brasil. Mas as limitações monetárias e alfandegárias na América Latina ainda não permitem que isso aconteça entre países da região.
O Mercado Livre é alvo de muitas ações na Justiça – só no Estado de São Paulo, são mais de 300. Como lidam com isso?
A porcentagem de ações na Justiça em relação ao número de compras nunca esteve tão baixa no Brasil. Em 2016, tivemos quase quatro transações por segundo. Mesmo assim, se 0,01% tem problemas, é muita coisa. Como tudo que se compra é pago via Mercado Pago, nós devolvemos o dinheiro se houver problemas. Por isso, cada vez menos pessoas se sentem motivadas a ir à Justiça.
E como lidam com os casos de produtos falsos à venda?
Temos um programa de proteção à propriedade intelectual. Qualquer empresa ou pessoa pode denunciar um produto falso está à venda no Mercado Livre. Automaticamente, retiramos o anúncio do ar. Mas quem denuncia tem o dever de provar para nós que aquele produto é falso.
Como o sr. vê a concorrência de gigantes do e-commerce, como Amazon e eBay?
Em todos os países, sempre tivemos muita concorrência. Vamos seguir pensando no longo prazo e fazer tudo para que nossos usuários tenham uma  experiência muito melhor do que tem hoje. Acho que nos últimos três anos nós realmente melhoramos muito, por isso tivemos um crescimento tão grande no Brasil. Mas ainda faltam muitas coisas -- muitas deles, vamos anunciar este ano. Acho que vamos seguir melhorando muito e crescendo muito.
Vocês ainda pensam só na América Latina ou tem planos de expansão global?
Temos uma oportunidade tão grande na América Latina: são 600 milhões de pessoas. No ano passado, só tivemos 30 milhões de compradores. É muito importante para nós expandir o número de usuários, porque os compradores vão onde tem mais vendedores e os vendedores vão aonde tem mais compradores. Nós preferimos focar na América Latina e vemos que temos oportunidade de crescer de 30 milhões de compradores para 600 milhões de compradores. No ano passado, nós tivemos seis compras por comprador -- há três anos atrás tínhamos duas compras por comprador. Está crescendo muito. Mas na China, o Alibaba tem 50 compras por comprador. Hoje. Nós queremos chegar lá. Por enquanto, vemos oportunidade muito grande e vamos continuar focando aqui.
Na semana passada, o sr. anunciou um grande investimento ao lado do presidente argentino Maurício Macri. Como vai aplicar esse dinheiro?
Sim, nós anunciamos que vamos criar 5 mil empregos nos próximos três anos em toda a América Latina. Sempre que falamos em toda a América Latina, o Brasil representa a metade. A outra parte do anúncio é uma sede muito grande que estamos construindo em Buenos Aires, mas o ano passado, nós fizemos a inauguração da sede no Brasil. Hoje, a sede que temos no Brasil é muito maior do que o que temos aqui em Buenos Aires. Agora teremos uma sede similar à brasileira aqui na Argentina.
Qual foi a importância de inaugurar uma sede tão grande no Brasil? Qual o simbolismo por trás da obra?
Pessoalmente, eu senti muito prazer em fazer a inauguração da nova sede. Quando começamos, éramos quatro caras na garagem de um subsolo. Quando nos mudamos para um escritório no Brasil, eu ainda me lembro o endereço. Era um apartamento pequeno, estava em obras. Eu tive que fazer a limpeza. E, após tantos anos no mercado, eu vi muitos empreendedores que gastavam muito dinheiro, mas não tinham por trás uma empresa ou um modelo de negócios que justifique. Grandes escritórios, com empresas pequenas. Nós fizemos ao contrário. Uma grande empresa primeiro e, depois que ela se tornou sustentável e milhões de pessoas usavam o serviço, nós construímos o escritório. Foi dinheiro do Mercado Livre que pagou essa obra. Mas do que tudo, foi um símbolo para nós mesmos. Foi também um sinal para o mercado de nosso posicionamento como empresa global. Estamos construindo algo muito grande.
Qual o seu maior desafio hoje?
Acho que a parte de logística. Ainda temos muito a melhorar. Meu sonho é que qualquer pessoa, de qualquer parte na América Latina, possa comprar no Mercado Livre e receba esse produto em duas horas, sem importar onde está o vendedor. Vamos ter que trabalhar muito nos próximos 20 anos para chegar lá.
Nos últimos meses, vocês compraram duas empresas brasileiras de software, a KPL e a Axado. Porque isso é estratégico para o Mercado Livre?
As duas empresas estão desenvolvendo software para melhorar a área de logística e armazenagem. A KPL está desenvolvendo um sistema de gestão de centro de distribuição. E a Axado, de Florianópolis, está desenvolvendo um sistema que vai nos permitir escolher qual empresa de correios é mais eficiente para entregar um determinado pacote em um determinado local. Encontramos empresas no Brasil que tem muito boa tecnologia e isso vai nos ajudar a ter um sistema de logística muito mais veloz.
O que você aprendeu de mais importante desde a criação do Mercado Livre?
Acho que temos que estar tranquilos quando as coisas vão muito bem e não se desesperar quando as coisas vão muito mal. É o mais importante.
Qual o seu sonho hoje? O que você almeja?
Eu acho que o Mercado Livre está apenas começando. Assim como democratizamos o comércio, acho que o Mercado Pago pode democratizar o dinheiro. O sistema financeiro é muito complicado, tudo tem taxas. Acho que em 20 anos, acho que uma empresa como Mercado Pago vai estar disposta a pagar para você usar o sistema só para ter a informação de onde você compra, o que compra. Além disso, tem muita gente está fora do sistema, porque sabe que se abrir uma conta-corrente vai ter que pagar taxas. Acho que é possível tornar o sistema financeiro muito mais eficiente em todo o mundo. Temos que democratizar o dinheiro.
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