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Antônio Houaiss: Entrevista concedida a Veja (30/08/1978), a Humberto Werneck e Zuenir Ventura - Parte 1


Veja - Como nasceu o Vocabulário Ortográfico ?
HOUAISS - Em dezembro de 1971, o Congresso Nacional aprovou a simplificação de alguns aspectos da ortografia brasileira. Recomendou então que a Academia elaborasse um Vocabulário. O passo seguinte a essa simplificação seria a unificação pura e simples das ortografias brasileira e portuguesa.

Veja - Não existe um acordo para a unificação?
HOUAISS - Não. O que existe é um acordo entre as academias dos dois países, firmado há dois anos, no qual os portugueses, finalmente, abdicam da condição de proprietários da língua. Esse acordo, no entanto, só entrará em vigor quando for aprovado pelo Congresso brasileiro. Mas até hoje, por motivos que desconheço, está no Ministério da Educação. As tentativas de unificação são antigas. Em 1943, as academias decidiram fixar uma grafia única. Mas nossos negociadores não estavam qualificados para uma discussão de tal importância. Ora, os portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guiné-bissaenses, etc. utilizam uma mesma língua. Não é admissível que, para escreverem uma palavra, tenham de saber como o lisboeta, o carioca ou o paulista a pronuncia. A grafia tem que ser acima e independente das pronúncias regionais. Parece absurdo, mas é o princípio da grafia fonológica, que existe há 3 000 anos. Tem-se como denominador comum alguma coisa que represente todas as variantes. Por incrível que pareça, isso é possível em todas as línguas. Mas, no caso concreto das discussões que precederam o acordo de 1943, havia um pressuposto de que a língua portuguesa era propriedade de Portugal e que os brasileiros eram apenas usuários por empréstimo. Levou algum tempo até que nós e eles tomássemos consciência dessa verdade simples: ninguém é proprietário de uma coisa que é um bem comum.

Veja - Onde os negociadores brasileiros erraram?
HOUAISS - Eles visivelmente abdicaram em alguns pontos importantes da questão ortográfica. Com isso, a feição de cada palavra ficou dependendo da pronúncia que ela tivesse na área culta de Lisboa ou Coimbra. Apesar disso, as academias assinaram um acordo e o Parlamento português o aprovou. O nosso, não, exatamente por causa desses absurdos. Nosso Congresso aprovou, aí sim, uma resolução colateral da ABL, que, no fundo, era o projeto que havíamos levado para Portugal e que não foi aceito lá. As ortografias continuam divergentes. E os nossos irmãos da África não sabem como decidir. Como uma questão de elementar política cultural - no melhor sentido, sem imperialismo -, é preciso promover a unificação. Em 1972, quando iniciamos nosso trabalho, havia uma dúvida: que tipo de Vocabulário deveríamos fazer? Uma coisa canônica, que é a simples repetição do que tem sido feito, ou algo que abarcasse a totalidade da realidade presente? Consultados meus colegas de Academia - ao contrário da tradição que os vê conservadores e quadrados aceitaram perfeitamente a hipótese de a ABL aventurar-se na abertura. O trabalho que agora concluímos vem com humildade. Pretende ser apenas um rascunho, uma base para a futura memória lexicográfica da língua portuguesa. Nele se explica que cada usuário dessa língua, de que país seja, é apto a eventualmente trazer-lhe correções.

Veja - Quais as fontes de pesquisa?
HOUAISS - Nós nos baseamos, em primeiro lugar, nos grandes dicionários e vocabulários da língua. Usamos, também, um grande número de Vocabulários regionais e locais. No caso dos neologismos, que necessariamente não estão nos dicionários, houve coleta em jornais e revistas, evidentemente, mas sobretudo uma pesquisa de natureza individual, em grande parte minha. Desses 400 000 vocábulos, pelo menos 80 000 foram coletados por mim. Porque depois de fazer duas enciclopédias a manipulação da língua me permitia dizer se uma palavra existe ou não.

Veja - Um jornal como Pasquim também serviu de fonte?
HOUAISS - Claro. Mas alguns modismos, cuja existência pudesse ser posta em dúvida, não entraram. Desses casos mais óbvios da zona sul carioca, por exemplo, muitos não terão entrado. Exemplos: Pô, duca. Acho que seria um pouco prematuro incluir essas palavras. Depois, não há o risco de perdê-las. Se prevalecerem na língua, sem dúvida serão incorporadas, O substantivo barato, por exemplo, de curtir um barato, já foi adotado.

Veja - Que universo vocabular mais tem contribuído para o crescimento do repertório da língua portuguesa?
HOUAISS - É muito difícil dizer. Mas tenho a impressão de que, por mais incrível que pareça, são as ciências na natureza. Desde meados do século XIX. Na flora, na fauna, na Medicina, a quantidade de palavras que aparecem é espantosa.

Veja - É possível computar proporcionalmente os vocabulários de cada universo do conhecimento?
HOUAISS - Um dos meus objetivos, no futuro, seria exatamente esse. A matéria não só é computável como também perfeitamente capitulável. Mas a tarefa demandaria, claro, uma equipe de sessenta a oitenta pessoas trabalhando durante quinze anos e, a partir daí, umas dez, quinze pessoas cuidando da manutenção e da atualização.

Veja - Isso não seria um luxo?
HOUAISS - É um problema de salvação nacional. A memória lexicográfica é o único ponto de referência interpsíquica dos indivíduos que falam a mesma língua e têm uma cultura comum.

Veja - Quatrocentas mil palavras: o português é língua pobre ou rica?
HOUAISS - Esse número está aquém da realidade. Até a metade do século XIX, de 40 000 a 60 000 palavras esgotavam a totalidade do vocabulário de uma língua de cultura. Mas de lá para cá a explosão vocabular tem sido tal que seria impossível registrar menos de 300 000. Se se toma como critério de línguas as palavras chamadas canônicas aquelas que podem ser usadas por pessoas cultas, o vocabulário pode limitar-se a 60
000 registros. Mas, se se incluem todas as terminologias - da Química, da Física, da Biologia, etc. -, aí o âmbito vai se alargando de tal maneira que 400 000 palavras já não serão suficientes.

Veja - Um homem comum utiliza quantas palavras?
HOUAISS - Depende. Um homem de cultura rural nasce, vive e morre com aproximadamente 3 00 palavras. Um homem urbano, dependendo do estrato social em que esteja inserido, varia entre 3 000 e 5 000. Um escritor como Guimarães Rosa, por exemplo, que pareceu um monstro, não vai além 8 000 vocábulos, segundo uma
pesquisa que acompanhei. Gabriele d’Annunzio, um dos mais verbosos escritores de língua italiana, terá chegado a 30 000 no máximo. Coelho Neto suspeita-se que este já entre 12 000 e 14 000 - o mesmo que Rui Barbosa. Camões seguramente não vai além de 8 000. Mas esse conceito de números de vocábulos como definição de potencial mental e temática é extremamente relativizado. Machado de Assis provavelmente ficaria em 5 000 e entretanto talvez seja o mais matizado dos escritores de língua portuguesa - porque aí o desgraçado, ao empregar a mesma palavra, sempre dava a ela um dengue rigorosamente novo.

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