Entrevista concedida a Veja (29/09/1971), na época do lançamento do romance Pedra do Reino.- Final


Na literatura brasileira, eu me coloco na linhagem de José de Alencar, Sílvio Romero, Euclides da Cunha (lá vai o cuidado para não omitir gente), Jorge Amado (da parte picaresca), José Lins do Rêgo, Adonias Filho, José Cândido de Carvalho, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa. É essa a minha linhagem. Não estou dizendo com isso
que sou escritor tão grande quanto esses aí. É apenas uma questão de parentesco. Nem estou examinando com isso a minha obra, está entendendo? Porque aí eu tenho uma visão crítica sobre meu trabalho. Agora, o que pode haver é se eu falar mal do homem sertanejo, se eu falar com má qualidade literária, então eu não toco nem o homem sertanejo, não vou atingir nem o homem sertanejo, entende? Agora, se eu falar bem, com eficácia, se eu conseguir expressar o conflito do homem sertanejo, ou mais particularmente de um homem sertanejo, que sou eu, aí eu vou falar a todo homem, porque o homem é o mesmo em todo canto, está entendendo? Você veja o seguinte: Tolstói, o grande russo, uma vez disse "Pinte bem a sua aldeia que você será universal". Porque no pequeno mundo de uma cidade sertaneja você tem todos os conflitos do mundo, fome, trabalho, amor, ciúme, desespero, guerra, morte, assassinato, tem de tudo. Então, você pode falar do homem. Você pode até dentro de uma casa falar do homem todo, entendeu? Por isso, se eu falhei, não foi por causa da minha posição, a meu ver. Foi por falta de qualidade do trabalho. Não precisa ser russo para entender
Dostoiévski, não.

Eu confesso, e isso pode parecer uma coisa desagradável que eu vou dizer, mas, por exemplo: o pessoal diz que literatura está ultrapassada. O pessoal atual, influenciado por esse negócio de comunicação, diz que o livro está ultrapassado diante do cinema, televisão, progresso das comunicações, formas audiovisuais. Bom, enquanto houver no mundo gente como eu, livro não está ultrapassado. Eu podia responder, até com uma
brincadeira: um amigo meu, o jovem escritor Maximiano Campos, que faz o posfácio da "Pedra do Reino", teve um argumento outro dia que achei muito curioso. Perguntaram aqui a nós se a gente concordava com um desses teóricos da comunicação, que predisse o fim do livro. Aí ele disse: "Onde foi que ele sustentou essa teoria? Num programa de televisão ou num livro?" Foi num livro. "Então esse sujeito eu não leio não, porque um
homem que para dizer que o livro vai se acabar escreve um livro..." Está certo, olhe, eu não vou negar a você que gosto que o púbico tenha contato com o meu trabalho. Mas essa coisa não é fundamental. Eu juro que não é. O fundamental, para mim, é escrever a obra, fundamentalmente escrever. Agora, no segundo estágio, se minha mulher, minha família e uns dois ou três amigos gostarem, já está bom. Mas, veja bem, eu dispensaria até isso. De certa maneira, declaro que eu gosto que um trabalho meu tenha a maior repercussão possível. Mas não é o fundamental. Agora, por outro lado, não é contando farol, mas não me tem faltado esse tipo de apoio.

Acho que um sujeito só fala bem daquilo que realmente ama. Ordinariamente, consideram o sertão um assunto ultrapassado. Tem muita gente me aconselhando: "Você precisa pegar o assunto urbano", Mas não me atrai. Eu também acho que não tenho o direito de andar procurando o gosto da juventude ou do público para poder
adaptar o meu trabalho de escritor a isso. Seria uma indignidade, não? Eu tenho de falar como o homem de 44 anos que sou. Seria uma coisa artificial, postiça inteiramente. Eu acho até uma indignidade procurar saber o que é que a juventude está querendo para então eu colocar minha literatura de acordo.

Em abril deste ano, quando o presidente Medici esteve no Recife, Ariano Suassuna foi o encarregado de fazer a apresentação da Orquestra Armorial de Câmara, um dos ramos do movimenta armorial-popular brasileiro, criado em fins de 1970 por artistas nordestinos de diferentes atividades (escritores, músicos, artistas plásticos). Era
uma audição especial para o presidente, a quem Suassuna expôs no momento a contradição que vivia: "Estou de mal com o presidente da República porque sou monarquista. E fico mal com os monarquistas porque estou falando com o presidente da República". Para os que só o conhecem de assistir às suas peças, aquela declaração não passava de uma brincadeira de sertanejo. Mas os que convivem com Ariano Suassuna sabiam que ele não estava brincando. Inclusive, se não lhe permitissem aquela declaração, não teria apresentado a orquestra ao presidente.

As vantagens da monarquia, para mim, no tempo em que ela existia, eram as que eu vou dizer. Em primeiro lugar, o Brasil é um país singular, diferente dos outros países, e apesar de isso ser uma vantagem, o Brasil se envergonha disso. O Brasil tem a mania do decalque. A república no Brasil foi o resultado dessa mania de imitação. O Brasil proclamou a república somente porque os Estados Unidos e a França eram republicanos,
entendeu? Então, até o nome, que era Brasil, virou Estados Unidos do Brasil. A primeira bandeira que fizeram da República, felizmente, o general Deodoro da Fonseca proibiu e mandou manter a bandeira tradicional; a bandeira do tempo do Império, com o escudo do Império. Então, eles propuseram no primeiro dia uma bandeira que era exatamente com as estrelas no canto esquerdo, uma listra verde, outra amarela, uma verde, outra amarela, igualzinho à bandeira americana. Agora, Deodoro da Fonseca teve bom senso e disse: "Não, a parte do retângulo verde e a do losango amarelo são intocáveis. Agora, o escudo do meio pode mudar". Foi por isso que mudou o escudo.

Quer dizer: então eu achava que o regime monárquico no Brasil marcava essa peculiaridade brasileira, essa singularidade brasileira que o Brasil pegou e jogou fora. Agora, a monarquia brasileira tinha umas coisas também de imitação européia que a mim não me agradam. Foi uma tentativa, por exemplo, de imitação do império liberal inglês da Rainha Vitória. Isso daí é que não simpatizo muito. Tanto que gosto mais do dom Pedro I do que do dom Pedro II, porque dom Pedro I era mais brasileiro, apesar de ter nascido em Portugal. Ele assumia muito mais as qualidades e os defeitos do nosso povo, eu acho.

Agora, isso historicamente seriam as vantagens da monarquia. Politicamente também, por outro lado, os povos latino-americanos de língua espanhola se fragmentaram, não conseguiram manter a unidade. E isso a gente deveu ao Império. Foi a visão de político de José Bonifácio que salvou a unidade do Brasil. Ele foi combatidíssimo na época, por ter feito a independência com o príncipe herdeiro, entendeu? Eles achavam que a rebelião devia ser contra Portugal e devia-se expulsar dom Pedro I. Eles, os extremistas da época. E ele teve essa visão. Se ele não fizesse isso, o Brasil se fragmentava. Aqui, o nordeste, por exemplo, estava com vontade de se separar. O Pará quase se separa, não é? E no sul havia tantas condições para a separação que logo depois, no império de Pedro II, o Rio Grande quase vai embora. Então, foi essa astúcia política de ter feito do
herdeiro da coroa portuguesa o chefe da independência, foi esse fato que salvou a unidade do Brasil.

Isso do ponto de vista histórico. Do ponto de vista político, também, me parece que a vantagem da monarquia é separar a pessoa do chefe do Estado, do chefe do governo, do chefe da nação. Numa república, o presidente, que vem de uma corrente política, é o chefe da nação. Então, haverá sempre uma contestação. Então, ele é o chefe do governo, mas a meu ver ele não devia representar a nação, porque isso traz para o chefe da nação as distensões políticas que levaram à eleição, está entendendo? Enquanto que na monarquia o rei é o chefe da nação e o chefe do governo é outro, o primeiro-ministro.

Não sou parlamentarista, não. Estou apenas mostrando a vantagem da separação. Agora, o pessoal diz: "Mas às vezes o rei é um imbecil". É. Mas eu vou dizer uma coisa: o risco é o mesmo. O risco de nascimento de um imbecil é o mesmo da eleição de um imbecil. Não existe nenhum presidente da república imbecil não? Hein? Tem como o diabo, hein? Tem vários, hein? Esse é o motivo – está entendendo? – de eu ser monarquista. E
tem outro, o motivo estético, se bem que eu reconheça que não se deve misturar muito estética com política Mas eu acho mais bonito monarquia do que república, se isso tem algum valor. E digo mais: o povo brasileiro acha também. Uma das coisas que eu acho mais bonitas no brasileiro é um traço monárquico. O pessoal diz: o brasileiro é inteiramente irresponsável, passa fome o ano todinho para se vestir de rei no carnaval. Acho isso uma coisa maravilhosa, uma coisa bonita, a coragem de sacrificar o cotidiano por um sonho. Acho que só um grande povo é capaz de um negócio desses.
Agora, uma outra coisa: como é que Pelé é chamado? É o rei do futebol. Não chamam ele de presidente, não, hein? Então, o brasileiro tem saudade da monarquia. A gente tem quatro séculos de história. Desses quatro, três foram monarquia. Outra coisa curiosa: quando o rei Balduíno veio aqui, recebeu um dos pedidos mais bonitos que já vi se fazer a um rei. Mas aquele sujeito não tem categoria para ser rei, não. Se eu recebesse um
pedido desses... O pessoal de Juazeiro do Padre Cícero mandou pedir que ele fosse lá, mas não o queria vestido de gente, não, queria vestido de rei. Ele não teve coragem de ir. Olhe, as empregadas aqui de casa. quando chegou a rainha da Inglaterra, ficaram no maior assanhamento para ver a rainha, está entendendo? Correu tudo para a televisão e quando ela desceu à paisana, de roupa civil, foi uma decepção. Porque rei para o
povo é rei mesmo, é rei de carta de baralho, que é bonito.
Quando deu esta entrevista, na semana passada, Ariano Suassuna estava gripado ("Essa danada me pegou de supetão, sem eu esperar"). Ainda assim, era o homem engraçado de sempre, o sertanejo magro (l,85 m de altura, 75 quilos) que tira soluções engraçadas das tragédias cotidianas, pondo o ridículo de braços dados com o dramático. Para ele, a tarefa do artista é divertir o mundo: "Mas uma forma superior de diversão. Quer dizer,
você tem que entender a palavra diversão aí num sentido amplo. Essa diversão tem que incluir até a fruição do trágico". Por isso, apesar de ter como personagens a gente do nordeste, suas peças e seu romance não se enquadram na literatura de protesto. "Não gosto da palavra, inclusive. Nem de literatura de denúncia." Acredita, pelo contrário, na vitória sobre o sofrimento através da graça. E está convencido de que o povo brasileiro,
mesmo com tantas dificuldades, também pensa assim.

As soluções engraçadas, para determinados tipos de problemas, comuns em minhas peças, isso é muito do povo brasileiro, não é? A maneira de resolver astutamente o problema. Isso, aliás, é uma das coisas que me leva a ter fé no Brasil. Acho que o Brasil vai se sair bem dos problemas que está vivendo, especialmente por isso. Mas para isso ele precisa ser fiel a essas peculiaridades, a essas diferenças. O homem do povo brasileiro tem uma grande sabedoria. O fato é que – veja – sobreviveu quatrocentos anos. Isso já é uma prova de grande sabedoria, inclusive de vida. O brasileiro tem uma filosofia de vida própria, uma maneira. E é isso que eu acho que está precisando. Quer dizer, quando eu me refiro às peculiaridades do povo brasileiro, que o regime monárquico acentuaria, eu estava me referindo a isso. Eu acho que o regime político tem que refletir isso.

A solução na "Compadecida", por exemplo, não é tão engraçada, não. Inclusive morre todo mundo. No fundo é uma história trágica que eu narrei comicamente porque eu gosto de rir. E o brasileiro de um modo geral também gosta, não sou eu só, não. De modo geral, o brasileiro gosta rir principalmente de si mesmo. Tenho também tragédias, "Uma mulher Vestida de Sol", "O Santo e a Porca". Apesar de ela ser cômica, acaba mal, muito mal. E mesmo a "Pedra do Reino" não acaba bem.

O mundo tem um fundamento trágico. Olhando seriamente, tem. Mesmo que não lhe aconteça uma tragédia especial, você vai acabar morrendo Você é condenado à morte pelo simples fato de ser vivo. O pensamento existencialista tem chamado muita atenção sobre isso. O sujeito é chamado para cá sem ser consultado e quando menos dá conta de si está condenado à morte por um crime que nunca praticou. Então, o fundamento da existência humana é trágico. Eu não tenho uma tendência para viver apavorado com isso, não é do meu caráter de sertanejo. Inclusive acho até graça nisso. É uma forma de saída como outra qualquer. Sei que vou morrer, todos sabemos que vamos morrer, mas não fico me lamentando por causa disso, não. Os existencialistas se lamentam muito, mas eu acho que é uma certa forma de covardia. A gente deve inclusive achar graça.

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