"A politica deve prevalecer sobre a economia"

 

O francês Alain Minc é uma voz dissonante no coro da unificação européia. Remando na contra-corrente, ele se dedica a apontar o que julga serem as fraquezas do modelo escolhido para a construção da Europa dos Doze. Ensaísta de renome, o menino-prodígio que já foi diretor financeiro do grupo Saint-Gobain, um dos gigantes da indústria francesa, e vice presidente de uma financeira internacional de outro colosso, o grupo italiano De Benedetti, provoca os europeístas ao afirmar que a Comunidade, antes até da adolescência já exibe traços senis.
Autor de um livro apropriadamente intitulado A grande ilusão e de um segundo, mais recente, na mesma linha, A vingança das nações, ele sustenta que não basta a integração econômica; a união européia requer "unidade política e estratégica" notavelmente ausente, por exemplo, na Guerra do Golfo, sobretudo para adaptar-se às dramáticas transformações ocorridas nos últimos anos na Europa Oriental. Minc, por sinal, parece não apostar um centime furado no progresso dos países recém-saídos do socialismo, nem no da própria União Soviética.

Por que tanto ceticismo em relação à nova Europa?

Até a queda do Muro de Berlim, a construção da Europa se baseava numa certa ordem. Doze países, a oeste da Cortina de Ferro, estavam inventando um superEstado. A integração econômica acarretaria automaticamente a integração monetária, que acarretaria a integração política, que acarretaria, enfim, a integração estratégica. O processo seria lento, mas isso não era problema, pois se tinha a impressão de que o mapa político europeu permaneceria estável por longos anos. Essa lógica desabou a 9 de novembro de 1989, junto com o Muro de Berlim. Tem-se agora um sistema muito mais complicado.

Que complicações são essas?

O sistema impõe três questões principais. A primeira é a necessidade de se garantir a democracia no Leste Europeu. A segunda é a insegurança estratégica da Alemanha, à falta do guarda-chuva nuclear americano e sem contar com uma defesa européia organizada; o problema alemão está na Europa Oriental, uma incógnita política. A terceira questão tem a ver com o fluxo migratório causado pelo fim da Cortina de Ferro. Estes assuntos são todos políticos, não econômicos. Portanto, tratar da integração econômica da Europa, como se nada tivesse acontecido, é ignorar questões essenciais.

Isso quer dizer que o impulso da unificação européia está condenado?

Não. Acho apenas que a construção da Europa deve se voltar para as questões políticas, devidamente dissociadas das questões econômicas. Os países do Leste poderiam aderir à Europa em sua forma política, que é a democracia, sem que isso acarrete automaticamente a sua adesão ao Mercado Comum.

A união política seria uma garantia contra o nacionalismo tanto no Leste como no Oeste?

A garantia estaria num projeto político feito por todos os 25 países europeus. Só que ainda estamos discutindo a união política da Comunidade dos Doze e isso nada tem a ver com a democracia na Polônia, por exemplo. É preciso criar um espaço político que obrigue o Leste a fixar regras em relação à democracia e aos direitos das minorias.

Qual o perigo maior para a Europa: uma volta da União Soviética aos tempos pré-Gorbachev ou uma espécie de império russo a caminho do caos?

Antes existia uma ameaça, mas nenhum risco. Agora não há ameaças, somente riscos. O espectro das possibilidades é muito maior. Vai desde a permanência do Gorbachev -Prêmio Nobel da Paz ao aparecimento de algum Saddam Hussein eslavo. Daí a importancia do problema de segurança da Alemanha, com a retirada gradual dos 400 000 soldados americanos aquartelados na Europa.

Existe alguma esperança econômica para os Países do Leste Europeu?
Não. A Europa do Leste será uma sub América Latina.

O senhor não está sendo benevolente demais em relação à América Latina?

Conheço muitos brasileiros e ouço o que eles me contam de ruim sobre a América Latina. Mesmo assim, quando comparamos, por exemplo, Brasil e Polônia, é outro universo. A terapêutica do FMI, imposta ao Brasil, beneficia ao menos uma pequena parcela da população. Na Polônia, a mesma política é ainda pior: tudo afunda porque não existe ali uma burguesia empresarial. A política de transição rápida para o capitalismo imposta aos países do Leste é absurda e ridícula.

O senhor é igualmente pessimista quanto à União Soviética?

Muito mais. A União Soviética é uma sub sub América Latina. É o quarto mundo. Uma favela brasileira comparada à periferia de Moscou é um oásis de dinamismo.

Não seria possível adotar uma espécie de Plano Marshall para a Europa do Leste, como os Estados Unidos fizeram para reconstruir a Europa Ocidental depois da guerra? (A ajuda americana foi de 70 bilhões de dólares, em valores de hoje.)

Ninguém vai querer pagar a conta.

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