AS LETRAS ILUMINADAS DO CHILE - PARTE 1

 

Em dia de chuva de 1969, num humilde povoado das redondezas de Santiago, o então promissor escritor Antonio Skármeta assistiu a um comício de Pablo Neruda, na época pré-candidato à presidência do Chile. Quando Neruda terminou seu discurso, a audiência, cerca de 200 pessoas muito simples com os pés atolados na lama, não deixou que ele se retirasse. Pedia: "Poemas, poemas, queremos poemas". A imagem nunca se apagou da memória de Skármeta. Anos mais tarde, ele a usaria no livro que serviu de base para o roteiro do filme O carteiro e o Poeta.

A cena diz muito a respeito do Chile. O país mais estreito do mundo, de 15 milhões de habitantes, tem dois prêmios Nobel de Literatura: Pablo Neruda (1971) e Gabriela Mistral (1945). Dois poetas. O Chile produziu também grandes prosistas. Aos 57 anos, Skármeta é um dos maiores representantes da literatura contemporânea do país, ao lado de Isabel Allende (que nasceu no Peru, mas foi criada no Chile) e do primeiramente ensaísta e agora dramaturgo Ariel Dorfmann. Todos os três tiveram obras transformadas em grandes produções de cinema - O Carteiro e o Poeta, de Skármeta, foi dirigido por Michael Radford e estrelado por Massimo Troisi e Philippe Noiret; A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, dirigido por Bille August e estrelado por Glenn Close, Jeremy Irons, Meryl Streep, Antonio Banderas e Winona Ryder, e A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfmann, dirigido por Roman Polanski e estrelado por Sigourney Weaver e Ben Kingsley. Há muito ultrapassaram as fronteiras de seu país. E há uma nova geração de escritores chilenos que começa a ganhar o mundo. A chamada Nova Narrativa Chilena, comparada aos autores da Geração X dos Estados Unidos (título do romance de estréia do canadense Douglas Coupland, em 1991, o termo se refere às pessoas hoje entre 20 e 35 anos e a seu comportamento niilista), já traz pelo menos um autor de sucesso internacional: Alberto Fuguet, 35 anos, autor de Mala Onda (ainda não publicado no Brasil).

Do Chile de Neruda ao Chile de Fuguet, muita coisa mudou. O poeta morreu em setembro de 1973 - sem nunca ter chegado a concorrer à Presidência da República, pois abdicara em favor de Salvador Allende, eleito em 1970. Pablo Neruda foi velado nos escombros de sua casa, em Santiago, que havia sido saqueada pela polícia. Allende também tinha morrido poucos dias antes do poeta, e o general Augusto Pinochet, encabeçando uma junta militar, havia assumido o governo do Chile em um golpe de Estado. Em março de 1998, o ex-ditador passará para a reserva, deixando o comando das Forças Armadas chilenas para tornar-se senador biônico, afastando-se lenta e duvidosamente do poder. Neruda viveu em uma aldeia orgulhosa, que se destacava no mundo por cultivar suas tradições ao extremo. Viveu em um país pobre onde os sonhos de igualdade social se traduziam em uma série nos movimentos políticos populares. A geração de Fuguet se criou em um país que se tornaria um país rico, com perfil de tigre econômico e vontade de se abrir para o mundo. Mas com diferenças sociais acentuadas, uma forte dose de descrença nos princípios democráticos e muitos traumas políticos. Skármeta é a ponte cultural entre esses dois países.

Antonio Skármeta e Alberto Fuguet não são prioritariamente escritores políticos. Skármeta é da geração que sofreu o golpe. Fuguet nasceu intelectualmente quando a ditadura já era uma realidade. Cada um deles, a seu modo, se dedica a descrever universos íntimos e conflitos pessoais. Mas, no fundo, no trabalho de ambos, esses universos íntimos são persistentemente assombrados pela ordem maior de uma sociedade em constante mudança. As obras de Skármeta e Fuguet são, por isso, um retrato riquíssimo do que se passou no Chile entre os anos que precederam o golpe e os dias de hoje.

Skármeta, que nasceu em Antofagasta em 1940, começou a escrever quando ainda estava na escola secundária em Santiago. "No liceu havia algo que, muito pretensiosamente, se chamava ´A Academia de Letras"´, disse o escritor em entrevista exclusiva a BRAVO! em seu atelier em Santiago. Depois de estudar filosofia, literatura e direção teatral, aos 26 anos, Skármeta lançou seu primeiro livro de contos. "Que foi recebido pelos críticos e pelo público como uma espécie de ar renovador na prosa chilena", diz. "O livro se chamava, muito significativamente, El Entusiasmo. Com esse título, essa prosa tão vital, eu me punha fora da literatura vigente daquele momento, que era uma literatura de espaços cerrados, de conflitos e angústias psicológicas. A minha era uma literatura de espaços abertos, ruas, ar, natureza, sexo sem problemas".

O representante clássico da geração anterior, a qual Skármeta se refere, era José Donoso, que morreu em 1996, autor de clássicos como Este Domingo, O Obscuro Pássaro da Noite e Casa de Campo. Embora Donoso fosse apenas três anos mais velho que Gabriel García Márquez (o primeiro é de 1925 e o segundo, de 1928), Skármeta aponta uma série de diferenças entre o seu trabalho e o realismo fantástico. "Aqui o realismo fantástico nunca entrou", diz. "O Chile seguiu todo o tempo uma tradição realista. Ou com um realismo fantástico mais obscuro, como o de Donoso, que é uma literatura muito imaginativa mas com contornos obscuros. O realismo mágico que se conhece de García Márquez é luminoso, festivo, é um carnaval. Donoso é um grande narrador. Não falo de qualidade, falo de mundos. Esse era o mundo literário chileno e eu apareci oferecendo um outro mundo."

O segundo livro de Skármeta, Desnudo en el Tejado (Nu no telhado), também de contos, veio em 1969. Por ele, o escritor ganhou o prêmio Casa de las Americas, em Cuba. O trabalho de Skármeta refletia o estado de ânimo da juventude chilena do final dos anos 60. A mudança de um país que, tradicionalmente isolado pela Cordilheira dos Andes, de um lado, e pelo Oceano Pacífico, de outro, começava a se abrir para o mundo. "A realidade tinha de ser trocada e era excitante participar da mudança da realidade", diz. "Entre ficar dormindo sobre os colchões cômodos, burgueses, e a aventura de mudar a sociedade, era muito mais divertido o jogo. Era divertido o movimento hippie. Era divertido o movimento político. Era divertida a literatura. Era uma época de grande excitação para a liberdade."

Nos tempos da Unidade Popular, Skármeta militava na esquerda mas, á diferença dos prosistas chilenos que o antecederam, de García Márquez e mesmo de Neruda, isso aparecia pouco em sua obra. "A nossa geração fez uma experiência de expansão, de crescimento, de encantamento muito espontânea", diz. "Quando a brutalidade política entrou, saímos desse estado de inocência animal e entramos em uma literatura, pelo menos a minha, de tons mais graves e certos desenlaces trágicos. O carteiro é um livro divertido, de crescimento de vida e linguagem, mas vai se fechando e termina com uma nota de melancolia."

O livro, que originalmente se chamava El Cartero de Neruda e mudou de nome devido ao sucesso do filme nomeado para cinco categorias do Oscar em 1996, foi publicado pela primeira vez em 1983 durante o exílio de Skármeta. O escritor viveu na Alemanha de 1975 a 1989, ano em que um plebiscito rejeitou a permanência de Pinochet na presidência e teve início a abertura política. Nesse período as histórias de Skármeta se tornaram mais diretamente políticas.

Os anos de exílio e a realidade política bastante diferente da de seus sonhos juvenis não acabaram com o entusiasmo de Skármeta. Nas suas obras mais recentes, os personagens jovens ainda estão presentes e o sexo ainda é um tema forte. Em Não Passa Nada (Editora Record), o protagonista e narrador é um adolescente chileno que vive na Alemanha com o pai exilado e, em La Velocidad del Amor, Match Ball (A Velocidade do Amor, Match Ball), a trama gira em torno da paixão de um médico de meia-idade por uma menina de 15 anos.

Desde que voltou ao Chile, em 1989, o escritor tem provado que seu ânimo e sua paixão pelo trabalho só aumentaram. Além de dar aulas, escrever romances e contos, fazer colunas para jornais e revistas, peças de teatro e roteiros para cinema e televisão, Skármeta criou em 1992 El Show de los Libros, um programa para a Televisión Nacional de Chile que trata a literatura como um espetáculo de mídia e procura despertar o prazer da leitura. Skármeta faz os roteiros, dirige e é o animador do programa. Com temporadas anuais, o programa ganhou vários prêmios, inclusive uma distinção da Unesco, em 1995, e o Gran Premio Midia´97 de Melhor Espaço de Televisão Ibero-Americana, na Espanha.

Skármeta é um entusiasta das letras. Ama os livros e faz questão de compartilhar esse amor com os outros. Logo que voltou do exílio, foi convidado por um grupo de garotos a organizar um workshop para novos escritores. Montou a Oficina Literária Heinrich Böll ainda em 1989. Foi nessa oficina que Skármeta descobriu Alberto Fuguet. "Ele foi muito generoso com os caras de seu workshop", diz Alberto Fuguet. "Eu mostrei um capítulo de Mala Onda, o capítulo que se passa no Brasil. Antonio gostou muito." Uma semana depois, Fuguet recebeu uma chamada da Editorial Planeta. Skármeta havia lhes mostrado o capítulo. Queriam publicar o livro imediatamente. "Eu tinha apenas 20 páginas, que levei para eles verem, e nós assinamos o contrato. Tive um contrato antes de ter um livro pronto."

Mala Onda acabou sendo publicado apenas em 1991. Antes disso a Editorial Planeta lançou uma coletânea de contos de Fuguet chamada Sobredosis, que foi escrita no intervalo. O público adorou os dois livros, mas a intelectualidade torceu o nariz. "Eu sempre pensei nesse livro como um livro político", diz Fuguet. "As pessoas costumam achar que eu sou alienado quando escrevo. Acho isso injusto."

Na verdade, desde a época da faculdade de jornalismo, Fuguet já se sentia pressionado pelas patrulhas ideológicas. "Estudei em uma época em que você não aprendia nada", diz. "A maior parte do tempo havia greves e passeatas. Até era divertido jogar pedras contra os guardas nas greves. Eu era contra o Pinochet, é claro. Mas, realmente odeio essa coisa comunista. Não suporto cerceamento de liberdade. Por isso, durante a faculdade, fui vítima de duas ditaduras: a do Pinochet, fora da escola, e a ditadura comunista, lá dentro." Quando dizem que a sua geração e as mais novas estão desiludidas com a política, Fuguet não concorda: "Não há como estarem desiludidos se nunca tiveram ilusões. Especialmente os mais novos. Quero dizer que sou o último cara que pensou em política. Todo mundo que é mais novo que eu não tem qualquer tipo de relação com a política."

Mala Onda, narrado por um garoto de 17 anos, se passa nos dias que antecederam o plebiscito. Começa no Rio de Janeiro quando o narrador está em viagem de férias com a escola. "Eu estive no Brasil quando tinha 17 anos", conta Fuguet. "Mas não foi só por isso que escolhi o Rio para começar a novela. Precisava de um lugar que simbolizasse diferença, porque o livro é a história de um cara que acorda. Na verdade, um dos títulos seria El Durmiente Debe Despertar. Matias, o personagem principal, acorda de várias maneiras: no sentido político, quem ele é, quem são os seus pais, o que ele quer. O Brasil, para mim, se tornou uma metáfora. Aqui no Chile, o Brasil representa liberdade, sensualidade, extroversão, abertura, desencanação.

Eu nunca teria feito isso com a Argentina, por exemplo. A Argentina não tem essa imagem no nosso inconsciente. O engraçado, a ironia, é que o Brasil, no livro, também está sob uma ditadura. Mas no Chile ninguém - e o garoto e eu - tinha a noção exata disso. Eu não conseguia acreditar, e o personagem não conseguia acreditar, que as pessoas fossem contra o ditador. Por quê? Elas não tinham toque de recolher." Além de livre, o Rio de Fuguet é moderno. "Nunca percebi que estava falando de um Brasil moderno", diz. Para ele, o Brasil sempre foi moderno. "Cresci assistindo a novelas brasileiras, Dancing Days. E era muito mais moderno do que estava acontecendo aqui. Mas eu também escrevo sobre um Chile moderno. É a realidade que eu vivo,"

Essa América Latina moderna, urbana, nada folclórica, que Fuguet apresenta em seus livros, foi em princípio uma barreira para a entrada do autor no chamado Primeiro Mundo. Os editores norte-americanos estavam interessados em temas latinos e recusavam o trabalho de Fuguet, alegando que ele poderia ter sido escrito nos Estados Unidos. Até que o escritor encontrou a St. Martin´s Press, a editora da Geração X, que publicou seus quatro livros: Sobredosis, Mala Onda, Tinta Roja e Por Favor Rebobinar. "Eu sou muito latino", diz o escritor que, apesar de ter sido criado em um subúrbio de Los Angeles, nasceu no Chile e para lá voltou na pré-adolescência. "Outro dia eu estava com uma garota americana passeando pelos campos chilenos e nós ouvíamos músicas americanas. Ela disse: ´Não posso acreditar nisso´. Para mim essas músicas não são americanas. São músicas chilenas. Estão tão ligadas à minha memória. Em Mala Onda, a obsessão pela cultura norte-americana é um aspecto muito latino-americano. De maneira alguma esse livro poderia se passar em Oklahoma. Apesar de parecermos iguais, de vestirmos a mesma Levi´s, ouvirmos a mesma música, nós processamos isso de maneira diferente."

Em 1996, Fuguet organizou uma coletânea de contos de novos autores latino-americanos, chamada Mc Ondo. "Tem escritores de quase todos os países da América Latina", diz. "São escritores novos, urbanos, conectados com o mundo." Mas, por mais ligado que seja no mundo moderno, Fuguet vê desvantagens no novo modelo. "Pessoalmente acho que hoje o país está muito pior do que jamais imaginei", diz. "Acho que o país está indo muito rápido. E eu vou devagar. Eu cresço 3% por ano e o país está crescendo 7%, não consigo alcançar. Mas todo mundo está realmente muito contente, de uma forma estúpida. Tudo é triunfalista. Acho perigoso." Talvez sinta que, de alguma forma, ainda faz parte do Chile de Neruda. Um Chile, que como vê Skármeta, está se perdendo. Com todas as perdas, e ganhos, o Chile que dá ao mundo Skármeta e Fuguet ainda é o Chile de grandes escritores, o país de Neruda, com todo o seu amor e respeito pelas letras.

 

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