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E se a Terra girasse para o outro lado?

 Você se lembra do filme Super-Homem, em que o herói faz a Terra girar no sentido contrário e, com isso, volta no tempo? Lembra? Pois esqueça. Isso é Hollywood. Se fôssemos levar a sério a hipótese de que a Terra girasse ao contrário, a principal mudança seria em outros tempos: o tempo frio, o tempo quente, o tempo chuvoso e todos os outros que caracterizam o clima. Sim, a rotação da Terra tem influência direta sobre as condições climáticas.

No Rio de Janeiro, em vez de biquínis teríamos casacos à beira-mar. Em Santa Catarina, em vez de golfinhos, leões-marinhos, talvez orcas. Assim seriam os cartões-postais do Brasil. Tudo isso porque a rotação da Terra tem influência direta no movimento das correntes de ar próximas ao oceano e, consequentemente, das correntes do oceano. E essas correntes oceânicas são responsáveis em grande parte pelo clima terrestre. São elas os principais veículos de distribuição do calor absorvido pelos trópicos. Para se ter uma idéia, as correntes de água quente liberam no Pólo Norte uma energia equivalente a 30% da energia solar que atinge a terra dos esquimós. O contrário também é verdade, ou seja, elas carregam frio polar para os trópicos, equilibrando o clima planetário.

Se a Terra girasse no sentido contrário, as correntes oceânicas também se inverteriam. “Isso teria um impacto climático decisivo”, diz Ricardo de Camargo, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (leia algumas mudanças no quadro abaixo).

Se o mar e os ventos corressem em sentido contrário, a história humana seria outra, também. Para ficar em um exemplo: foi na crista dos ventos e das correntes oceânicas que correm da costa africana para o Brasil que Cristóvão Colombo chegou ao novo mundo. Se a corrente fosse contrária, os europeus precisariam esperar que a tecnologia naval se desenvolvesse um pouco mais para se aventurar pelo Atlântico.

VENTO NA CONTRAMÃO
As correntes oceânicas se movem no sentido anti-horário no hemisfério norte e no sentido horário abaixo da linha do Equador. Se a Terra girasse ao contrário, as correntes também se inverteriam.

SARDINHAS CONGELADAS
O litoral brasileiro seria banhado por águas frias e teria um clima semelhante ao da costa do Chile, hoje. Teríamos menos gente na água, mas mais peixes

FADOS AO VENTO
No Atlântico Norte, os ventos soprariam para leste e empurrariam sobre Marrocos, Portugal e Espanha as tempestades tropicais e furacões que hoje sacodem o Caribe

CAMPINA VERDEJANTE
O deserto do Saara, se existisse, seria muito menor, pois o ar úmido e quente do Atlântico seria soprado diretamente sobre o norte da África, levando muita chuva para o interior do continente

Para entender o movimento de rotação da Terra é preciso voltar às origens do sistema solar. Há cerca de 5 bilhões de anos, o Sol era cercado por uma grande nuvem giratória de gás e poeira. Ao longo de milhões de anos, o material disperso nessa nuvem foi se aglomerando e formando os planetas vizinhos da Terra. Por isso, todos seguem o mesmo movimento da nuvem que lhes deu origem, com exceção de Vênus e Urano, que giram em sentidos diferentes, por razões variadas. No caso de Vênus, uma das explicações é que seu eixo teria virado de cabeça para baixo sob a força de atração de outros planetas, segundo Sylvio Ferraz-Mello, professor do Departamento de Astronomia da USP. Urano os cientistas acreditam que se formou por dois planetas que se chocaram. A colisão teria dado origem ao novo movimento.

Mas não só o clima mudaria. Se a Terra girasse para o outro lado, o ano teria dois dias a mais. Isso ocorreria porque cada dia seria quase oito minutos mais curto, ou seja, a Terra daria mais voltas em torno de si mesma até completar uma volta completa em torno do Sol.

O conceito do que é oriente e ocidente, ligado ao local onde o Sol nasce e se põe, também se inverteria. Pois o Sol, assim como a Lua e as estrelas, nasceriam do lado oeste (atual Ocidente) ao invés do lado leste (atual Oriente) do globo. O Japão mudaria de nome. A palavra Japão vem do chinês jih-pun (“Sol nascente”, origem do sol), que é a forma abreviada de jih-pun-kuo (“país da origem do Sol”), nome pelo qual os chineses designavam seus vizinhos à direita. No novo cenário, seríamos nós os orientais.

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