O monge cientista - Parte 1

O líder espiritual e político dos tibetanos é um defensor e admirador da ciência, como método complementar ao budismo na busca pela verdade

Se não fosse um religioso, o 14º Dalai Lama poderia ter se tornado um pesquisador. Desde criança, o monge gostava de mirar as estrelas com seu telescópio. Sem estudo científico prévio, deduziu, ao observar as sombras na superfície da Lua, que o corpo celeste não emitia luminosidade, ao contrário do que ensinavam alguns textos budistas.
Foi só o começo de sua relação com a ciência, que se consolidou em outubro de 1987. Nessa data, passou uma semana reunido com cinco cientistas ocidentais na Índia. A proximidade entre o budismo e as ciências cognitivas, pauta das discussões, deu origem ao Instituto Mind and Life (Mente e Vida), sediado nos EUA.
A associação, dedicada a investigar a mente por meio das tradições científicas e budistas, promove encontros anuais entre o religioso e homens da ciência. 'Em vista de alguns elementos dos ensinamentos de Buda serem incompatíveis com nosso atual conhecimento do mundo, a validação final dependerá da autoridade do raciocínio e da lógica', declarou o Dalai Lama no primeiro encontro com pesquisadores. Afinal, o próprio Buda estimulava seus discípulos a testar suas afirmações.
Qualquer semelhança com o método científico é uma coincidência muito bem-vinda, que o Dalai Lama celebra em 'The Universe in a Single Atom' (O Universo em um Único Átomo), seu livro mais recente
Por que um líder espiritual, porém, estaria tão interessado em desvendar os mistérios da física, química, cosmologia e neurobiologia? Certa vez, o Dalai Lama disse ao psicólogo Daniel Goleman, autor de 'Inteligência Emocional', que o budismo e a ciência não são perspectivas conflitantes acerca do mundo, mas métodos diferentes de chegar ao mesmo objetivo: a busca pela verdade. Para ele, investigar a realidade é essencial ao budista, e a pesquisa científica pode expandir seus conhecimentos.
Entretanto, o religioso explica que sua meta ao colaborar com pesquisas neurocientíficas principalmente as que estudam a meditação não é aprimorar o budismo, mas contribuir para o benefício da sociedade, pois ele acredita que, com a educação da mente, as pessoas podem lidar melhor com suas emoções destrutivas.
O Dalai Lama já declarou diversas vezes e reafirma em seu novo livro que, se a ciência provar que algum preceito budista é incoerente, ele deve ser alterado. Um exemplo disso é o 'sistema Abhidharma', uma das tradições da cosmologia no budismo. O Abhidharma descreve um planeta Terra chato, ao redor do qual corpos celestes como a Lua e o Sol revolvem. 'O budismo deveria abandonar muitos aspectos da cosmologia Abhidharma', escreve em 'The Universe in a Single Atom'.
O mestre procura não apenas entender as descobertas científicas, mas também compará-las com as lições milenares do budismo. 'A descrição do comportamento de partículas subatômicas nos níveis mais diminutos possíveis traz o ensinamento de Buda sobre a natureza transitória de todas as coisas', relaciona.
Em outros aspectos, budismo e ciência divergem. O lama (mestre) conta que, certa vez, um neurocientista lhe disse que todos os estados mentais se originam de estados físicos, e nunca no caminho contrário. 'A visão de que todos os processos mentais são necessariamente físicos é uma suposição metafísica, não um fato científico. Sob o espírito da investigação científica, é fundamental que a questão continue aberta', registra na obra.
O Dalai Lama lembra que, de acordo com o paradigma corrente da ciência, o único conhecimento válido é aquele derivado de um método estritamente empírico, apoiado pela observação, inferência e verificação experimental
Porém, em sua opinião, muitos aspectos da realidade, como a distinção entre o bom e o mau, a espiritualidade e a criatividade artística, caem inevitavelmente fora do escopo desse método.
Outra questão enfatizada no livro é a importância da observação individual, invalidada cientificamente, mas crucial no processo de autoconhecimento budista. 'O método de 'primeira-pessoa' é essencial. A experiência de felicidade pode coincidir com certas reações químicas no cérebro, como aumento no nível de serotonina, mas nenhuma descrição bioquímica e neurobiológica pode explicar o que é a felicidade', justifica.
Apesar de sua relação próxima com cientistas, o Dalai Lama teve de enfrentar oposição de alguns deles em novembro do ano passado, quando foi convidado a discursar na reunião da Sociedade para a Neurociência, em Washington. Uma petição propondo o cancelamento da palestra do religioso foi elaborada por um grupo de cientistas - muitos dos quais chineses, adversários políticos do governo tibetano no exílio. 'Foi uma piada', critica Sara Lazar, da Universidade de Harvard. 'A maioria dos nomes na petição era falsa. O fato de que 15.000 pessoas assistiram à palestra mostra o interesse da comunidade científica em escutá-lo', afirma.
O neurocientista Zvani Rossetti, da Universidade de Cagliari, Itália, diz que o evento não é o local adequado para um religioso. 'Por mais interessante que sua palestra tenha sido, não foi científica', declara. 'A meditação pode ser definida como a habilidade de direcionar o pensamento e a atenção, e é uma propriedade do cérebro, não do budismo. A alucinação é importante para a neurociência. Devemos convidar o papa para falar sobre milagres?', questiona.

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