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Entrevista do Mês: Roger Waters (Pink Floyd) - Final

FOLHA - Muitas canções do disco tratam de sociedades opressoras, do individualismo, do poder do capitalismo... O mundo mudou muito em relação àquela época?
WATERS - Há coisas que eu falava em 1973 que são mais fáceis de se ver hoje. Ou, melhor, que são mais difíceis de serem escondidas. A idéia de poderosos mudando o esquema do jogo em benefício próprio... Isso existia na época, mas hoje está mais escancarado. Muito por culpa da internet. Trinta anos atrás eu não poderia saber o que as pessoas no Rio ou em São Paulo achavam do meu trabalho, por exemplo. Pessoas como eu... somos uma minoria, mas uma minoria que está crescendo. Talvez entenderão que o modelo materialista e capitalista adotado por muitas nações em desenvolvimento não necessariamente trará felicidade à maioria das pessoas. A queda do comunismo no Leste Europeu não foi uma vitória do capitalismo. Isso é algo que estão entendendo hoje.

FOLHA - O jornalista John Harris, no livro que ele escreveu sobre "Dark Side...", afirma que esse álbum marca o final da influência de Syd Barrett sobre o Pink Floyd. Você concorda? "Dark Side..." iniciava um novo período?
WATERS - Não concordo. Depois de "A Saurcerful of Secrets" [segundo disco do Floyd], Syd não teve quase nenhuma influência na banda. Entretanto, você pode dizer que conceitualmente "Dark Side..." teve origem em "Echoes", que estava em "Meddle" [com mais de 23 minutos de duração, "Echoes" encerra o disco "Meddle", de 1971]. Há versos em Echoes que dizem: "Strangers passing in the street/ By chance two separate glances meet/ And I am you and what I see is me" [Estranhos caminhando pela rua; por acaso dois olhares se cruzam; e eu sou você e o que eu vejo sou eu]. As idéias a respeito de individualismo e de opressão, que estão em "Dark Side...", vêm dali. Mas não quero diminuir a contribuição de Syd ao Pink Floyd. Sem ele o Pink Floyd nunca teria acontecido.

FOLHA - Hoje está havendo uma reavaliação do papel do Pink Floyd no rock. Você acha que a banda foi injustiçada no aparecimento do punk, quando vocês foram classificados como banda que representava tudo o que estava errado no rock?
WATERS - No rock and roll, algumas pessoas têm essa idéia de que se você está nesse negócio por mais de dez anos, então você já é algo do passado. Porque rock and roll, supostamente, é coisa de radicais, de mudanças, de revoluções... Se olhassem o que fazíamos, o que escrevíamos, veriam que eram coisas radicais, que iam contra o sistema estabelecido. E esse radicalismo durou até eu sair da banda, em 1985. Houve um erro de avaliação dos jornalistas e daquela geração que se auto-intitulava punk. Eles entenderam tudo errado.

FOLHA - Gostou da reunião do Pink Floyd no Live8 [evento beneficente ocorrido em várias cidades do mundo em 2005]?
WATERS - Foi emocionante. Faria de novo. Ouvir aquelas canções, com todos juntos novamente... Pessoalmente, acho que seria uma boa se fizéssemos de novo.

FOLHA - Então há esperanças de uma reunião do Pink Floyd?
WATERS - Não acho que David Gilmour se entusiasmaria com a idéia... Alguém deve perguntar a ele. Acho que ele não gostou muito do Live8. Li algumas entrevistas que ele deu depois em que dizia: "Seria a mesma coisa se Roger Waters não estivesse lá"... Ele ainda parece querer se segurar ao poder. Mas, não sei, de repente ele se aproxima e quem sabe? Seria uma coisa boa.

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