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Neurociências: como a mente acha paz nesse bombardeio de notícias de guerra

 Os noticiários não dão trégua. É guerra, é pandemia, são velhas mazelas que parecem despencar sobre nossas cabeças, uma atrás da outra.

E não, não existe abrigo: até nas redes sociais onde, antes, você iria apenas bisbilhotar a foto do feriado dos amigos, agora desfilam as últimas imagens de uma realidade sem filtro e difícil de encarar.

Será que tanta notícia ruim seria capaz de afetar a saúde mental até mesmo de quem parece estar bem? Queria saber. Pode parecer óbvio que sim, mas será que existiria alguma pesquisa nesse sentido? Se alguém teria a resposta, essa pessoa seria a neurocientista Elisa Kozasa, pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Doutora e pós-doutora em psicobiologia, realizando estudos em colaboração com algumas das mais reconhecidas universidades do mundo, Elisa Kozasa é o nome que sempre me vem à lembrança quando preciso entender o que ciência já sabe sobre esse bem tão difícil de ser flagrado: o nosso bem-estar. Tinha de procurá-la.

Ela então imediatamente me enviou dois estudos, seus e de seus colegas, sobre o que acontece com as nossas emoções depois de ouvir notícias boas e após escutar notícias ruins. Mais do que isso, as duas pesquisas investigaram os efeitos de um áudio de relaxamento. Os resultados dão pistas de como dar à mente um pouco de paz.

Informação e emoção

Um dos estudos foi iniciado ainda em junho de 2020 com 245 médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, dentistas, biomédicos e técnicos do próprio Einstein. A mídia estava dominada por manchetes a respeito da covid-19 e eles, profissionais de saúde, se sentiam na obrigação de acompanhar tudo sobre pandemia.

Ao aceitarem participar, responderam um questionário no qual apontavam, em uma escala, o quanto se sentiam ansiosos, estressados, esperançosos, irritados, desapontados, felizes, otimistas, preocupados e, por fim, cientes de suas emoções.

"Quem entrava para o estudo também era automaticamente sorteado para receber as notícias positivas ou as negativas", conta Elisa Kozasa. Eram 2 minutos exatos de áudio com ótimas novidades sobre os avanços contra a covid-19 ou com as piores revelações a seu respeito. Não deu outra: o estado emocional de todos os que escutaram as notícias ruins piorou visivelmente.

Uma curiosidade é que o questionário on-line para fazer essa avaliação foi programado para levar de 15 a 20 minutos e o número de participantes do estudo seria até maior se os cientistas não tivessem descartado as respostas de quem demorou meia hora ou mais para preenchê-lo.

Perguntei o motivo: "Precisávamos conhecer o impacto imediato das notícias", justificou a neurocientista. "Se desse um tempo maior, a emoções poderiam sofrer a influência de outras coisas que as pessoas tivessem sabido ou vivido." Faz sentido.

O segundo estudo foi semelhante, observando o impacto das boas e das más notícias sobre a covid-19, mas realizado com 717 participantes da população geral, recrutados nas redes sociais.

O detalhe extra foi que, dessa vez, os cientistas ainda avaliaram possíveis associações entre o estado emocional de toda essa gente e a prática de atividade física. Eles também repararam em quem tinha sinais indicando problemas de saúde mental.

Logo no início, o estado emocional dos indivíduos com depressão era pior. No entanto, o áudio das notícias ruins da pandemia teve um impacto negativo na emoção de todos, até de quem parecia estar bem antes — o que só evidencia que devemos escolher muito bem as informações que consumimos. Ou, se algumas delas são inevitáveis, saber como consumi-las.


Para lidar com tudo isso: relaxar depois é fundamental

Tanto no estudo com médicos quanto na pesquisa com a população em geral, todas as pessoas ouviram um outro áudio com uma prática de relaxamento de pouco mais de 3 minutos de duração.

"Não queríamos correr o risco de deixar os voluntários mal depois dos áudios negativos sobre a covid-19", explica Elisa Kozasa. Portanto, no fundo essa segunda gravação foi pensada para aliviar aqueles que foram expostos às notícias desagradáveis.

"O esperado era que o relaxamento fizesse bem para eles em particular, mas que tivesse pouco ou nenhum impacto naqueles que tinham acabado de escutar notícias positivas", conta a pesquisadora.

No entanto, não foi isso o que se notou: "Ainda que a melhora do estado emocional com a prática de relaxamento tenha sido maior no grupo das notícias ruins, ela também foi observada nos voluntários que ouviram boas notícias, o que acabou sendo uma surpresa bem bacana", admite.

Sendo realista, é improvável que a gente consiga parar esses 3 minutos depois de ler cada reportagem sobre a Ucrânia, assistir pela tela à explosão de uma bomba ou à fila de refugiados — sem contar nossas próprias dores, como as dos desabamentos em Petropólis e tantas outras.

Mas, para a neurocientista, o interessante é a gente notar que essas informações têm um peso e, caso você seja mais sensível, ver se não seria o caso de parar de absorvê-las por uma hora e fazer, nesse período, algo como meditar, caminhar, ler um texto capaz de alimentar a alma.

Para ver o todo: buscar boas notícias também

É importante ainda buscar conteúdos que, conforme o gosto de cada um, tragam sensações de bem-estar, alegria e diversão."Não se trata de positividade tóxica, isto é, daquela ideia de fechar os olhos para os fatos e dizer que está tudo bem e que sempre vai dar tudo certo", faz questão de esclarecer a professora. "Porém, na mídia, há um predomínio de notícias negativas, talvez porque elas chamem mais atenção. E, se alguém lê sobre guerra, pandemia e temas do gênero o tempo todo, o algoritmo vai trazer cada vez mais esse tipo de conteúdo."

Por isso, a sugestão de Elisa Kozasa não é deixar de se informar sobre o que está acontecendo no planeta, mas saber contrabalançar o consumo de conteúdo sobre a atualidade com outros assuntos, quase que adestrando os algoritmos para um equilíbrio.

"Para termos lucidez, tomarmos decisões e sermos úteis ao mundo, precisamos estar com as emoções equilibradas e ver a realidade como um todo, com fatos positivos e negativos que muitas vezes acontecem ao mesmo tempo", lembra a neurocientista do Einstein.

Atividade física para se proteger do noticiário

Isso mesmo. No estudo com a população geral, os pesquisadores perceberam que a influência das notícias ruins sobre as emoções foi menor entre os praticantes regulares de atividade física, bem como de ioga e meditação.

"De alguma maneira, o exercício físico parece deixar a mente mais protegida e apta para construir um estado emocional mais saudável", diz a professora Elisa.

Compaixão e altruísmo para completar

Diante de imagens fortes, violentas ou tristes, como tantas a que somos expostos, o olhar da compaixão pode ajudar: "É quando, enxergando o sofrimento do outro, paramos alguns segundos para entrar em contato com esse sentimento e realmente desejarmos que aquela pessoa encontre uma condição melhor", ensina a neurocientista.

Acredite: isso faz mais pela saúde mental do que passar os olhos por cenas desoladoras como se nada tivesse a ver com a gente. Porque, lá no fundo, a mente não compra essa ideia.

"Um passo além da compaixão é o altruísmo", ensina Elisa Kozasa. "O altruísmo não fica só no pensamento, porque ele sempre implica em uma ação, ainda que pequena e dentro das possibilidades de cada um", define.

Ou seja, ao ver uma fila de refugiados de guerra pela televisão, talvez você não possa fazer nada concretamente por eles. Mas, naquele dia, poderá ajudar alguém na esquina da sua casa em situação de vulnerabilidade, só para dar um exemplo. E, para mente, não faz diferença: ela entende a atitude como sair do estado de impotência. O que lhe faz um bem danado — isso, aliás, já é uma boa notícia.

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