Elis Regina - Entrevista concedida a Veja (25/10/1978), durante a temporada do show Transversal do Tempo.

Veja - Como foi que sua experiência no engarrafamento se transformou num espetáculo?
ELIS - Eu tinha um contrato assinado com o Teatro Leopoldina em Porto Alegre. E, entre fazer um recital, um concerto simplesmente, preferi chamar algumas pessoas para dirigir, iluminar e coisas do tipo. Aí foram surgindo idéias. Aquele engarrafamento me deixou uma impressão muita forte, principalmente porque eu estava grávida e me senti indefesa naquela hora. Tinha helicópteros de um lado, cavalos de outro, gente correndo por todos os lados. E eu estava ali, sem ter escolhido isso. Estava fechada dentro de um táxi, com medo, sem poder falar com o chofer, porque você nunca sabe com quem você anda, e o Ubaldo tomou conta de mim. A analogia veio depois, porque na hora você faz a fotografia, a ampliação vem depois. Quer dizer, assisti, ao vivo, a falta de respeito que está solta pelo ar. A falta de respeito existe para com o rio, a pessoa, a árvore, o passarinho. Esse desrespeito, na verdade, criou uma situação de impasse. Você sabe que o sinal de trânsito só vai ser aberto quando o guarda resolver abrir. Enquanto isso, você está dentro de um
táxi e tudo acontecendo. Você imagina saídas, mas o sinal não abriu, o que podemos fazer? Ficamos sentados dentro de um táxi, numa transversal do tempo, esperando. Não te perguntam nada, não te pedem opinião.


* Transversal do Tempo estreou em Porto Alegre, seguindo depois para Lisboa, Roma, Milão, Paris, Barcelona, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Salvador,
Belo Horizonte e Curitiba. Roteiro e direção: Maurício Tapajós e Aldir Blanc. Cenários e figurinos: Melo Menezes. Direção musical: César Camargo Mariano.


Veja - Isso tudo está jogado no espetáculo?
ELIS - Está dentro do espetáculo. A angústia, a claustrofobia e também as várias fugas. A alienação que pode vir através dos embalos de qualquer dia da semana. Na realidade, não é um espetáculo feito para dançar. Alerto que os bailantes se sentirão muito agredidos, portanto não me cobrem. Se quiserem assistir, já estou avisando antes. Também não estou dizendo que todo espetáculo deva ser assim e também não quero dizer que todos os outros farei desta forma. Mas eu peço desculpas, usando as palavras do Vitor Martins: Me perdoem, os dias são assim. A partir do momento em que resolvi que minha arte deve ter ligação com a realidade em que vivo, mínima que seja, lamento imensamente a cara amarrada, a falta de espaço, a falta de amigos. Também não fui
preparada para isso, é o que me está sendo dado para digerir. Gostaria que fosse diferente. Mas também, como a maioria das pessoas, estou esperando o guarda acionar a mudança de cor no sinal. Enquanto isso, eu canto um sinal de alerta.


Veja - Esse sinal de alerta pretende exatamente o quê?
ELIS - Mostrar o momento político de impasse em que vivemos e o resultado dos momentos políticos que nos trouxeram a esse impasse. O partido político com o qual você conta para ser de oposição arregla e 41 saem da sala, se escondem debaixo do tapete ou no banheiro, só pode ser. Isso é uma porcaria quando você está nas portas do 15 de novembro e tem que votar nesse partido de novo. Agora, vai votar no outro? Não, vota nesse e continua tudo na mesma. Esse é o impasse, a falta de escolha, a falta de espaço, de ar, de confiança, de relaxo.


Veja - Você acha que depois do Falso Brilhante não havia condições de apresentar um simples recital?
ELIS - O artista não pode aceitar, em hipótese alguma, a rotulação de fora para dentro, quer dizer, toda e qualquer ação de cima para baixo tem que ser, imagino, rechaçada. Eu não posso, de nenhuma maneira, me sentir coagida. Porque, se eu começar a aceitar esse tipo de imposição de fora para dentro, eu estarei aceitando o rolo compressor. E me parece que várias áreas da nossa sociedade brigam hoje em dia, justamente, para não aceitar o rolo compressor.


Veja - Estaria aí a explicação para as diversas fases de sua carreira?
ELIS - Acho que sim. E também explica a precipitação de uma série de pessoas que não permitem ao ser humano desenvolver-se naturalmente. Existe uma série de lacunas que precisam ser preenchidas. Então, quem tiver disponibilidade para carregar o fardo, vai ser usado, na medida em que ele deixa ser usado. Eu falo isso porque quando pintei tinha 20 anos e sequer quiseram me permitir, num determinado momento, fazer as estripulias normais de uma adolescente. Já começaram jogando nas minhas costas uma sobrecarga violentíssima, que talvez eu tivesse condições de arcar com ela agora, aos 33. Foi uma violência, mas se foi cometida, eu permiti. No final das contas, uma mão lava a outra. E as diversas fases pelas quais fui passando determinaram-se, evidentemente, por um processo de amadurecimento e também por sufocos momentâneos. Parti do princípio de que uma cabeça conturbada não consegue organizar atos lúcidos. Então, acho que agindo, agitando, sentindo capacidade para desenvolver, criar, retomar e iniciar uma série de coisas, não é possível fazer julgamentos. Julgar uma pessoa de 33 anos chega mais ou menos na raia do ridículo. Eu ouvi pessoas dizendo que o Chico Buarque já era, quando ele tinha 25 anos de idade. A verdade é que, naquele momento, o que interessava era outro tipo de manifestação musical que estava pintando no país. E, no entanto, temos aí o Chico Buarque quase entronizado, a figura de nosso segundo patriarca.


Veja - Em termos de postura artística, de escolha de repertório, no que exatamente o tal rolo compressor chegou a você?
ELIS - Teve uma fase infantil, ou juvenil, eminentemente romântica. Foi quando cheguei ao Rio de Janeiro e comecei a cantar músicas que se pareciam muito com o que eu ouvia na aula do professor Jorge, o zorro vingador dos meus 18 anos. E, como toda pessoa que está saindo da escola, não participando de nada efetivamente, não lançando profundidade em nada, acaba se tornando superficial. Eu achava que era correto porque assim eu tinha ouvido e batia com meu conceito de justiça. Mas era muito romântico.

Veja - Foi uma fase mais emotiva do que verdadeira.
ELIS - Exato. Depois, evidentemente entrou uma coisa que me chamou muita a atenção, que foi a paixão pelo som da minha voz. Quer dizer, uma pessoa estrábica, baixinha, gordinha, pobre, tudo ao contrário, de repente vira a cinderela. E cinderela mesmo, com abóbora à meia-noite e fada madrinha  que era a TV Record, o Fino da Bossa. Mas as pessoas não dão tempo nem desculpam a infantilidade. Isso realmente é uma pobreza. Eu me vi, de uma hora para outra, na sala com o príncipe e podia até ser que o sapatinho de cristal coubesse no meu pé. E uma certa bronca que tenho é que não me deram nem tempo para curtir este barato. Começou uma polêmica em torno de minha pessoa com falatórios sobre coisas que eu realmente tinha feito e outras que
diziam que eu havia feito. E então confundiu, embolou o meio de campo e até organizar tudo de novo demorou uns cinco, seis anos. Se a pressão não fosse tão forte, talvez eu tivesse passado por essa fase não cinco anos, mas um ano e meio.


Veja - No final das contas, a sua fase de deslumbre durou mais do que devia?
ELIS - As pessoas muito jovens, quando se sentem pressionadas demais, parece que fazem questão de reincidir no erro, para mostrar que elas é que estão certas. E foi assim não só com a minha carreira, mas com minha vida pessoal também. Até que eu fiquei grande, virei mãe, cresci. Já não tinha mais mãe, eu era a mãe. Aí voltei a me dar o direito de administrar minha vida e fazer dela o que bem entendesse, desde dormir com quem quisesse até trabalhar com quem resolvesse. E até mais recentemente eu me mandar profissionalmente, eu ser meu próprio patrão. Acho que esse processo, mesmo lento, é uma chance que deveria ser dada a toda e qualquer pessoa. Porque, afinal, quem não deu as suas mancadas?


Veja - Você considera um erro, então, a sua fase perfeccionista, quando muitos te acusavam de ser uma cantora técnica e fria?
ELIS - Durante um certo tempo eu achava que havia um certo exagero por parte das pessoas. De uns tempos para cá - inclusive por causa da constante reafirmação dessa fase tecnicista -, eu fui dar uma ouvida nos discos que gravei nessa época. Era uma questão de me confrontar comigo mesma e saber onde estava a sementinha que gerou tudo. Confesso que 80% do que fiz, eu refaria de uma forma completamente diversa. Não sei se estava errado porque eu estava errada, ou porque hoje estou completamente diferente, minha cabeça mudou estupidamente de dois anos para cá. Objetivamente, acho que a
crítica existe e não é infundada. Agora, o que determinou, eu também não estou mais a fim de saber, porque estou vivendo em 1978 e faz muito tempo que chutei a análise para escanteio.


Veja - Não seria, no caso, uma supervalorização da técnica de cantar, de se apresentar, onde a sua antiga emoção deixou de existir?
ELIS - Talvez a emoção estivesse motivo. Talvez, se ela saísse, seria algo tão massacrante para mim que a saída foi correr, fugir da raia. Agora, técnica de cantar eu tenho e vou morrer tendo. Hoje talvez eu esteja muito mais tranqüila em relação ao passado e mesmo ao presente, para poder até controlar o grau de emoção que posso soltar, para não me machucar. Você não pode ser uma Joana D’Arc todos os dias porque acaba realmente queimada. O que consegui com o tempo foi não bloquear a emoção, deixar que ela venha, mas não ser a Joana D’Arc, não ter pena de mim. Eu sou uma profissional, quando estou no palco represento de verdade, mas sei que estou apenas representando. Quem me ensinou isso foi o Ademar Guerra, ele explicou até onde
podemos ir para chegar na emoção e o que fazer para que a emoção continue presente diariamente. Mas que você tenha consciência de que está representando e não se mate todos os dias. Todo mundo precisa de técnicas para viver. O que tenho na garganta é um instrumento. Se o pianista precisa estudar anos a fio para executar seu instrumento, por que eu não tenho que estudar também para usar minha garganta, ou saber usar o microfone que é o meu instrumento auxiliar, que amplia minha voz? O problema é que existe muita fantasia em torno da minha profissão. É muito paetê, muita lantejoula, mas no fundo esse é o verdadeiro falso brilhante. É mentira tudo o que cerca a minha atividade. Eu como igual a todo mundo, durmo, gosto de ser elogiada, quando sou criticada fico ressentida, mas vou procurar depois saber o que aconteceu. Só que eu dou capa de revista e outros não dão.


Veja - Essa guinada na sua vida, há dois anos, se explica no espetáculo Falso Brilhante?
ELIS - Não, o Falso Brilhante foi a eclosão de uma guinada que começou há seis anos. Foi mais ou menos como um quebra-cabeças, juntando pecinhas. E o problema todo era reconstruir esse quebra-cabeças. A conclusão foi enfim o espetáculo, mas também não foi uma explosão para ser aquela e acabar. Estou dizendo que estou viva, quero fazer minhas coisas, continuar não aceitando a rotulação de fora para dentro, de cima para baixo. E vou continuar a vida inteira de camicaze por uma questão de temperamento. É isso que me faz ficar de pé, me instiga, me põe em questionamento eternamente.


Veja - Esse seu comportamento está colocado em Transversal do Tempo e tem recebido algumas críticas. Chegaram a dizer que o show tem um tom panfletário.
ELIS - Panfletário porque o dom da contestação é propriedade privada de uns três ou quatro no país. Disseram também que o show falava de coisas passadas, que aconteceram em 1968. Agora, eu não tenho culpa se essa pessoa está vivendo num bairro em que não acontecem coisas que estão acontecendo no meu. Estou vendo. Vi no Recife, em Belo Horizonte, Salvador, Curitiba. Será então que só eu estou vendo? Então os jornais estão mentindo todos as dias. O que você pode discutir é a necessidade ou não de uma pessoa fazer um espetáculo desse tipo. Aí eu pergunto: dá licença de eu achar que sim? Eu sou assim, não fui sempre, fiquei. Azar o meu. Agora, otimista eu continuo sempre.


Veja - Foi a propósito desta postura que se acabou ressuscitando o fato de você ter se apresentado nas Olimpíadas do Exército em 1969.
ELIS - Eu cantei nessas Olimpíadas e o pessoal da Globo todo também participou. Todos foram obrigados a fazer. E você vai dizer que não? Eu tinha exemplos muito recentes de pessoas que disseram não e se lascaram, então eu disse sim. Quando apareceu isso eu procurei o Aldir Blanc e disse: Poxa, que sacanagem. E ele falou: Você cedeu como cederam os 90 milhões. Agora, é fácil acusar. Quero saber o que essa pessoa estava fazendo quando eu estava cantando nas Olimpíadas. E tem mais, numa situação excepcional, idêntica, eu não sei se faria de novo. Porque eu morro de medo. Faço todos os espetáculos me borrando de medo todos os dias. Faço, mas com medo. E se mandar parar eu paro, porque medo eu tenho.

Veja - Outra acusação que geralmente fazem à sua pessoa é de ser geniosa, temperamental. É verdade?
ELIS - Acho isso uma grande irresponsabilidade. Irresponsabilidade em relação ao tipo de informação que você passa adiante sobre uma certa pessoa. O tipo de mentalidade e imagem, conceito que está criando a respeito de uma pessoa. Como é que eu posso dizer, por exemplo, que o Jair Rodrigues é um cara que toda vez que canta faz de uma única maneira, se faz oito anos que não trabalho com ele? Como é que você pode dizer que uma pessoa é alguma coisa? Digo isso porque as pessoas que costumam fazer este tipo de crítica não me vêem há muito tempo. As pessoas não dão chance a ninguém de se modificar, de evoluir, de regredir. Porque no dia em que ela tiver que reorganizar o seu fichário na pasta ou no compartimento Elis Regina, vai dar muito
trabalho. Eu não tenho a menor intenção de ser simpática a algumas pessoas. Me furtam o direito inclusive de escolher. Sou obrigada a aceitar quem passar pela minha frente. Me tomam por quem? Uma imbecil? Então eu não tenho gosto, não tenho preferência, não tenho padrões, modelos, nada disso? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde, já estarei amarela. Eu sou do contra. Não vai me dirigir não. Decifra-me ou devoro-te? Não vai me devorar e nem me decifrar, nunca. Eu sou a esfinge,
e daí? Nesse narcisismo generalizado, me dá licença de eu ser narciso um pouquinho comigo mesma? De fazer comigo o que bem entender, ser amiga de quem quiser, de levar para minha casa as pessoas de quem eu gosto? Qual é a faceta que estou mostrando pra você? A de uma profissional de música e ponto final. Porque bem poucas pessoas vão conhecer a minha casa. Sou a Elis Regina de Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo.

Comentários

flavio pavesi disse…
Elis, gracas a Deus existe toda esta parafernaria, onde podemos olhar pela primeira vez, outra vez mais e quantas vezes se for necessario.
Grito a liberdade e acao aos nossos direitos. Saudades da tua presenca fisica, mas em espirito sei que aqui continuaras para sempre!
beijos sempre fraternos.
FL.Pavesi

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