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Samuel Beckett e a necessidade de falhar melhor

 “O fim está no início e ainda assim você segue em frente”. O escritor e dramaturgo irlandês Samuel Beckett é um nome marcado por uma poética do mínimo, da subtração, da tentativa de representar o homem que tenta falar diante do vazio. Companhia e outros textos (Globo Livros, 128 páginas, R$ 25), com tradução de Ana Helena Souza, lançado agora, reúne textos da fase final da carreira do autor, na década de 1980, quando as desconstruções estabelecidas em obras como Molloy, Malone morre e O inominável foram radicalizadas.

Beckett é considerado por muitos o último dos escritores do que se convencionou como modernismo literário. Fã confesso de James Joyce, foi justamente por admirar muito o seu conterrâneo que ele chegou a escrever parte de sua obra em francês: primeiro, porque a língua inglesa seria um território único de Joyce, não havendo mais nada a se acrescentar; segundo, porque só em um idioma estrangeiro que ele poderia alcançar seu objetivo de “escrever mal".

Companhia, texto que abre o livro, é construído a partir de uma cena bastante própria do imaginário beckettiano: em meio a escuridão, um homem ouve uma voz que fala com ele e sobre ele mesmo, mas que, ao mesmo tempo, pode ser sua própria voz. A cena absurda e irreal é o modo de Beckett de mostrar a solidão. A voz que ele escuta, então, pode não ser nada mais do que uma ilusão, um aparato mental para inventar uma companhia. Ainda que pudesse render uma esperançosa visão de que as narrativas – e, portanto, também a literatura – podem livrar o homem do seu isolamento, o autor irlandês faz questão de mostrar que isso chega a um fim, que as palavras cessam, que fábulas são apenas fábulas. No fim, no nosso escuro, continuamos todos sós.

FALHAR MELHOR


Também presente na coletânea, Pra frente o pior é uma das mais enigmáticas produções do autor, constantemente citada por autores e leitores contemporâneos. Escrita originalmente em inglês, com o título de Worstward Ho, ela é uma das poucas obras que o próprio autor recusou traduzir para o francês. Ana Helena Souza conta na edição que aparentemente ele não quis sofrer com o “trabalho de luto” inerente à adaptação desse texto para outra língua, já que ele foi construído a partir da indefinição das palavras e frases, sem pontuação.

Pra frente o pior é famoso porque vai até o limiar do que é convencionado como prosa narrativa – é quase um discurso dirigido ao leitor. A narrativa contém frases memoráveis, verdadeiros exemplares da desesperança beckettiana, que insiste em ir em frente mesmo sabendo que nada bom o espera. Afinal, como ele diz: “Tudo de outrora. Nada mais nunca. Nunca tentado. Nunca falhado. Não importa. Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor”.

O que há em comum em todos os contos é a experiência de se estar à beira de um abismo a cada elipse, frase e parágrafo. Como se olhar para o vazio fosse um trauma que arrancasse do escritor (e do leitor) as palavras que podem ser bonitas, as construções originais, as belas histórias. O que pode restar disso?

Talvez o que Paul Celan disse em um de seus poemas: “Se viesse, / se viesse um homem / se viesse um homem ao mundo, hoje, com / a barba de luz dos / patriarcas: só poderia, / se falasse deste tempo, só / poderia balbuciar, balbuciar / sempre sempre / só só”. Celan e Beckett falam como se fosse dois dos poucos que estão cientes das impossibilidades – literárias e não literárias – da sua época, do absurdo da modernidade. Se só se pode balbuciar, então é isso que Beckett faz. No seu inglês ou francês, cria histórias quase sem narrativas, que hesitam a cada frase: afinal, é preciso, ainda que balbuciando, falhar melhor.

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